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Catálogo Celma Albuquerque | 10/08/2016

CELMA ALBUQUERQUE - UM CERTO OLHAR

“Neste momento de inauguração tenho que olhar para trás, por um instante, e ver que foi um longo caminho percorrido até a abertura desta galeria. Posso dizer que tudo começou aos 11 anos de idade, quando saí da fazenda, como era costume na época, para estudar num colégio de freiras. A arte era levada a sério no currículo daquela escola, e eu, muitas vezes, dava um jeito de ser mandada para a biblioteca, onde ficava horas e horas folheando os livros de arte. Recusada no coral da escola por ser totalmente desafinada, procurei compensar isso, destacando-me no teatro amador e nas aulas de desenho e pintura.

Em 1964 vim para Belo Horizonte disposta a estudar arte dramática. Devido às dificuldades que passávamos todos, naquele momento político e histórico conturbado, optei pelas artes plásticas. Cheguei – o que pouca gente sabe – a viver da minha pintura. Porém meu senso crítico falou mais alto e acabei trocando a minha arte pela de quem fazia melhor do que eu. Foi então que abri a Chromos, nos anos 80. A partir daí minha vida se tornou um eterno aprendizado: viagens, visitas a museus, galerias, ateliês e exposições, conversas com artistas e críticos, livros e mais livros (outra paixão).

Mesmo com todo o sucesso que obtivemos ali não me saía da cabeça a ideia de construir a galeria dos meus sonhos. Este novo espaço é a soma de tudo isso; minhas experiências profissionais e de vida. É a realização de um sonho, que só será pleno se for bem usado em prol da arte e da cultura da nossa terra. Quero dar a Belo Horizonte um espaço à altura da cidade...”

Celma Albuquerque



O texto acima é parte daquele que ela escreveu para o catálogo de inauguração da nova galeria, dessa vez com o nome Celma Albuquerque, em 1998. A exposição inaugural foi uma coletiva com obras dos artistas Antonio Dias, Iole de Freitas, José Bento e Fabio Miguez. Aí ela já deixou claro a que veio. Sua intenção era mostrar o que havia de melhor na produção contemporânea brasileira.

Iberê Camargo, Eduardo Sued, Waltercio Caldas, entre outros, fazem parte de coleções mineiras direcionadas por Celma. José Bento talvez seja o exemplo que melhor demonstre a força de trabalho da Celma. Artista mineiro de renome nacional, teve sua carreira do lançamento ao ápice cuidada por ela.

Os filhos Flavia e Lucio Albuquerque, sócios da galeria, aprenderam e dão continuidade ao trabalho iniciado por ela.

O que nos aproximou, no final dos anos 80, quando a conheci na Chromos, foi sua paixão pela arte. Ela não fazia distinção entre o que é conhecido como arte popular e a arte contemporânea. Entre Amilcar de Castro, Iberê Camargo, Farnese e tantos outros, deparei com muitos Artur Pereira, vários Itamar Julião, Nino, Poteiro, Lorenzato (vi com ela pela primeira vez obras do pintor), GTO, Izabel Mendes da Cunha e toda uma produção dos artistas espontâneos brasileiros.

Os mineiros ela visitava com bastante frequência. Conheceu todos e deles comprou diretamente as obras que formaram a sua coleção. Ia a Cachoeira do Brumado, era benquista e bem recebida por Seu Artur e sua mulher. Ouvia as histórias que ele tinha pra contar, tomava café, criando uma relação de amizade e confiança. Seu Artur sabia que Celma viria e guardava peças pra ela. Ela, por outro lado, sabia que se demorasse a aparecer provavelmente perderia as obras.

Não foi só com o Seu Artur que a relação foi construída durante muitos anos. Itamar Julião, em Prados, festejava a sua chegada. Para ela o momento da morte dele, tão prematura, foi de tristeza e indignação. Ele, que já tinha a sua “clientela” e consequentemente algum dinheiro, começou a ser alimentado pelos vendedores de droga... triste fim.

A seleção das obras feita por mim e pela Germana Monte-Mór para esta exposição mostra exclusivamente o olhar de Celma para a produção de alguns artistas: Artur Pereira; Farnese; Itamar Julião; Maurino; Lorenzato; Poteiro; e vários outros. A coleção é enorme. Uma boa parte dela tive, há alguns anos, o privilégio de adquirir.

Um mês antes da sua morte, Celma me chamou. Peguei um avião, cheguei e fui diretamente ao seu apartamento. Senti-me emocionada! Ela queria que fizéssemos juntas, e em São Paulo, a mostra que agora se concretiza. Não deu tempo...

Com o falecimento dela, em dezembro de 2015, fui procurada pela Flavia e pelo Lucio, que puseram em minhas mãos esses tesouros. Considero esse um ato de generosidade da parte deles. A credibilidade da Celma, seu trabalho em prol da arte brasileira e, aqui, um recorte da sua coleção sem dúvida permitirão que muitos tenham acesso às obras que ela guardou e entendam melhor o seu olhar.

Agradeço aos filhos a amizade e a confiança que depositaram em mim.

À querida Celma, minha gratidão por ter me ensinado a ser mais exigente e criteriosa. Ela foi para mim uma verdadeira mestra.

Vilma Eid




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