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Catálogo Exposição Alcides | pinturas | 12/11/2013

Alcides

Conheci Alcides no início dos anos 90. Fazia pouco tempo que ele chegara a São Paulo, vindo de Mato Grosso, onde morava desde 1950. Nasceu na Bahia, e essas várias mudanças de paisagem foram influenciando o seu trabalho.
Em São Paulo, veio para morar com uma filha, em uma favela da Zona Leste. Essa nova moradia sempre chamou a minha atenção porque eu ficava imaginando a grande transformação que se operava na vida e na cabeça dele. De uma vida em um lugar onde a natureza é abundante, ele passou a conviver como trânsito e a poluição da nossa cidade.
Alcides era um homem muito humilde, com uma grande fé e uma bondade quase incomum nos tempos atuais.
No primeiro ano dele em São Paulo, senti que sua obra estranhava esse novo habitat e procurava um caminho que ele mesmo pudesse reconhecer. Eu ia quase todos os meses à sua casa para vê-lo trabalhar e adquiria suas pinturas, que ainda sentia estarem em nova fase de busca. Mas queria incentivá-lo a continuar porque tudo que eu via mostrava o grande pintor que ele era.
Um dia ele veio ao meu encontro trazendo uma tela que representava um avião. Fiquei muito surpresa, já que aquilo era uma novidade na sua obra. O avião era maravilhoso! A composição, as cores, o geometrismo, tudo muito bem resolvido. A partir desse momento ele deu início a uma grande série de meios de transporte. Eram caminhões, motos, aviões, trens. Deixou para trás as paisagens mato-grossenses, maravilhosas, e reencontrou o caminho que, me parecia, ele intuitivamente procurava.
Eu comprava todos os seus trabalhos, e aos poucos consegui introduzi-lo no difícil circuito cultural paulistano.Sua pintura esteve presente na Mostra do Redescobrimento, 500 anos, na Fundação Bienal de São Paulo, no módulo de arte popular. Alcides passou a ser conhecido e sua obra, admirada.
Em 2007, com a Galeria Estação já em funcionamento, achei que era a hora de fazer a sua primeira exposição individual. Ele compareceu e ficou muito feliz por conhecer pessoas que admiravam o seu trabalho. Recebeu o reconhecimento da imprensa através de uma bela matéria no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo, assinada pela jornalista Camila Molina. Mas já estava debilitado, e três dias depois faleceu. Foi uma grande tristeza!
Alcides não viveu para ver a continuação do reconhecimento do seu talento. Em 2010, Paulo Sérgio Duarte, que hoje é o curador desta mostra individual, já apreciador da sua obra, colocou-o lado a lado com um trabalho do Nuno Ramos na exposição Arte Brasileira: além do sistema. Em 2012, suas pinturas participaram da exposição Histoire de Voir na Fundação Cartier, e hoje fazem parte do acervo da instituição. Ainda em 2012, Alcides participou de outra exposição coletiva, em Nova York, na Andrew Edlin Gallery.Há obras suas no acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, no Museu Afro Brasil, no Pavilhão das Culturas Brasileiras e no MAM do Rio de Janeiro, coleção Gilberto Chateaubriand.
Por tudo isso, esta exposição tem um sentido especial para nós. É um tributo a Alcides Pereira dos Santos, nascido na Bahia em 1932 e morto em São Paulo em 2007.
Saudade!

Vilma Eid




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