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Curador

Um olhar da memória
Luisa Duarte


A estória é sobre um pássaro, e se passa numa época antes que o mundo existisse. Pássaros voavam em círculos no céu. Círculos. Círculos. E não paravam de voar porque não existia terra, somente o céu, e eles não paravam de voar. Até que o pai de um dos pássaros morreu. E isso se tornou um grande problema - o que deveria fazer com o corpo? Porque, antes de o mundo existir, não havia terra, só o céu. E os pássaros pensaram no que fariam, enquanto voavam. Em círculos. E voaram por dias até que o pássaro finalmente teve uma ideia. Ele decidiu enterrar o seu pai na parte de trás da sua cabeça. Este foi o início da memória.


Laurie Anderson


Em uma conversa com Santidio Pereira, em meio ao processo de realização da presente mostra, escutei o artista afirmar que notava uma clara diferença entre ver e enxergar. O ver, traduzo aqui com as minhas palavras, estaria relacionado a um olhar apressado, próprio de um ritmo contemporâneo marcado por uma atenção distraída, enquanto o enxergar seria aquilo que suas gravuras demandam, ou seja, uma mirada capaz de se demorar em um mesmo objeto, pacientemente. Seguindo Santidio, seria possível encontrar algo novo em cada um de seus trabalhos mesmo depois de anos e anos de convivência. Logo, os mesmos estariam vinculados antes ao regime do enxergar do que ao do ver.
É interessante notar como estamos diante de uma equação de mão dupla. Por um lado, a sensibilidade do artista para uma forma de perceber o mundo que testemunha uma clara depauperização: nosso aparelho perceptivo se encontra atrofiado diante de uma época na qual a quantidade de estímulos cresce exponencialmente. Por outro, o que Santidio sinaliza é que, de alguma maneira, um antídoto para esse império do ver estaria posto em sua obra. A suas xilogravuras solicitam, de cada um de nós, um gesto de parada, uma paciência do olhar em vias de extinção.
O conjunto de trabalhos reunido em O olhar da memória apresenta, em sua maior parte, imagens de pássaros da caatinga piauiense, região na qual o artista viveu até os 8 anos de idade. São impressões de grande escala, nas quais sobreposições de cores e formas nos dão a ver caburés, garrinchas, lambus, juritis - diferentes espécies de aves que povoam sua terra natal. Em meio a essa fauna, outras gravuras, de caráter menos figurativo, aludem, sutilmente, a plantas da paisagem local.
Nesse conjunto os pássaros são, a um só tempo, protagonistas e coadjuvantes. Surgem imponentes, dominando a cena, mas, para um segundo olhar, são receptáculos de um mundo camuflado nas suas entrelinhas. Vestígios de inúmeros outros entes da fauna e da flora revelam-se, pouco a pouco, em cada gravura. É preciso tempo para que esse universo, ali implicado, se desvele.
Santidio sabe que a escolha por obras em grande escala coopera para que devotemos uma mirada em sobrevoo, que pensa ter capturado toda a cena em uma vista rápida. A sucessão de camadas presente em cada gravura, os diferentes tons, as inúmeras figuras que somente se insinuam, nos dando a ver o trabalho sempre e a cada vez sob uma nova perspectiva - é justamente essa arquitetura interna complexa que nos solicita uma atenção prolongada e, logo, um predomínio do enxergar sobre o ver.
Mas, note-se, essa não é somente uma demanda da obra, mas sim uma qualidade da mesma. Essas xilos pertencem a um tempo mais lento, no qual a potência da memória se encontra preservada. Se o artista veio para São Paulo aos 8 anos, não é a paisagem cinza e dura da capital paulistana que comparece em seu trabalho, mas sim a natureza de cores quentes do sertão piauiense. São as imagens mnemônicas que irrigam a sua poética.
O entrelaçamento entre um olhar paciente e o cultivo fino da memória parece ser crucial para a compreensão da potência existente na produção desse artista ainda tão jovem. Santidio instaura um tipo de apreensão do mundo raro em nossa época. Sabemos que a diferença entre ver e enxergar, de que nos fala o artista, não é recente, mas sim está posta para os estudos da percepção há muito tempo. Para retrocedermos somente pouco mais de um século, na virada do XIX para o XX, a mudança na fisionomia da vida nas cidades, marcada por numerosos estímulos visuais, formava, então, um aparelho perceptivo apto a se proteger dos choques visuais. Esse estado de alerta permanente, que levamos conosco até hoje a cada vez que ganhamos a rua de uma metrópole, nos legou diversos efeitos colaterais, entre os quais um déficit da nossa capacidade de preservar lembranças. Ou seja, ao passo que nossos olhos são atrofiados, nossa memória também esvanece.
Essa é uma dinâmica que parece se adensar sem que tenhamos qualquer perspectiva de reversão. Muito pelo contrário. Em alguma medida somos analfabetos visuais, portadores de uma atenção distraída, em um mundo no qual as imagens ganharam contundência inédita. O diagnóstico do teórico tcheco Villem Flusser, de que estamos “surdos oticamente”, não fica longe da conclusão do sociólogo alemão Georg Simmel, ainda no começo do século passado, para quem o “tipo metropolitano de homem desenvolve um órgão que o protege das correntes e discrepâncias ameaçadoras de sua ambientação externa”.1 Pouco a pouco findamos por desenvolver um tipo de percepção que podemos chamar de “restritiva”.
Ora, a aurora do novo milênio testemunha um quadro ainda mais avançado nesse estilhaçamento do sentido da visão. Essa época que atua contra o olhar, a despeito de se dar, sobretudo, para o olhar, é a nossa. Uma época que faz o elogio incessante da aceleração, da vigília, e é inimiga do ócio, da contemplação, do sono, do sonho, da imaginação, sendo, assim, desencantada. Um mundo sem passado, portanto sem memória.
Não me parece difícil perceber como a obra de Santidio caminha na direção oposta desse diagnóstico. Seus trabalhos solicitam um olhar dilatado e são realizados tendo como motor justamente os registros mnemônicos, tão rarefeitos no presente. A própria gravura, um método milenar de reprodução, traz consigo esse outro tempo, muito distante deste que impera, próprio das imagens digitais reverberadas ao milhões em cada aparelho de celular. E há ainda, aqui, a imaginação. O artista não faz um documento fiel daquilo que lembra, obviamente. Estamos diante de transfigurações, muito singulares, de uma paisagem vivida.
Os pássaros cinzas de Santidio, por exemplo, são antes fruto de uma intenção do artista de borrar o referente do que cópia fiel de alguma espécie existente em Isaias Coelho, no Piauí. As cores nos levam, ainda, para diferentes tonalidades afetivas. Em uma das gravuras vemos um pássaro mesclado nas cores cinza e grená, sobre um pedaço de tronco. A ave parece se contorcer, mirando para baixo. A região da cabeça é tomada pelo preto, restando somente um olho desconfiado que nos fita de soslaio. Já em outra, um pássaro laranja, altivo, pousado sobre o que parece ser uma cadeira, nos olha frontal e assertivamente. Essas gradações, que passam do mais frio ao mais quente, do crepuscular ao solar, do arredio ao altivo, são todas nuances que formam a tessitura invisível dessa poética.
Esses movimentos internos da obra de Santidio evocam aquilo que já foi sabiamente apontado por Rodrigo Naves: “No geral, sobressai nela [a obra do artista] a busca de formas em que a alegria troca frequentemente de posição com imagens mais secas, em que cores luminosas se veem turvadas pelos negros. E espero que esse dualismo consiga se firmar e se fortalecer em suas gravuras, já que é justamente essa experiência híbrida – feita de momentos de leveza e de desolação – que dá o tom da existência contemporânea”.2
Passados dois anos da escrita das palavras acima, é possível responder que sim, esse dualismo segue sendo parte fundamental de seu trabalho. Mas, se nesse aspecto a produção do artista e a experiência contemporânea rimam, no que toca à temporalidade de suas obras, há uma dissonância, e aqui reside, também, uma potência fundamental. Na contramão de um presente marcado pela aceleração, pelo entorpecimento do olhar e pelo esvanecimento da memória, as gravuras de Santidio Pereira afirmam a chance, ao menos na esfera da arte, de um tempo mais lento, no qual um olhar paciente se instaure diante de obras irrigadas pelo fluxo da memória.


1 Georg Simmel, “A metrópole e a vida mental”, em O fenômeno urbano, Guanabara, 1987, pp. 12-13.


2 Rodrigo Naves, “Cores em preto e branco”, Catálogo da mostra Santidio Pereira, Galeria Estação, 2016.