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Curador

Isso não é um pássaro.


Exclamação. Em movimentos rápidos, cores e lápis e papéis e imagens surgem por todo lado. Sentamos sobre as tintas, estamos falando aqui de um artista que não grava, “desmancha”. Nome dado ao momento da colheita da mandioca no Curral Cumprido - Piauí,  chamamento coletivo que viu crescer e acolhe.
São camadas de memórias, me lembro. Repertório atravessado pelo fato de ter vivido boa parte do tempo com seu bisavô e seus oitenta e poucos anos de histórias. E ensinamentos. Não da técnica da xilografia, mas da sua cosmogonia e seu modos de ver a vida.
Porque instaurando o corpo como arquivo, fazendo dele passagem, Santídio Pereira parece recriar e traduzir esse tempo ancestral. Não objetivamente no seu relevo primeiro mas, no nível mais profundo e fundamental que toma forma na natureza do seu gesto. “Passado e presente se distinguem apenas pelo desgaste da madeira”[1], li um dia desses. “Nunca uma imagem é perdida, mesmo lá no fundo dá pra ver o fim dela, consegue?”, ele questiona.
O lugar do qual falamos, está cartografado na primeira página do seu caderno de viagem. Aves-migrantes que em revoada permanecem juntas, ainda que separadas. Seja em pequenos ou grandes formatos, tudo acontece no momento em que vê. Desejo de parar o tempo, criar uma imagem de si mesmo, do que lhe encanta, recorda e agrada. O que anima é o que grava.
Isso não é um pássaro.
E nem reticências.
O artista vê além. E se inscreve. Performa seu topos de criação e em “O preto no branco, sobreposição e nuances”, anuncia como possibilidade de reflexão para a arte do presente, a desorganização de seu discurso taxinômico. Aberto ao público, disponível aos muitos olhares e diferentes perspectivas nessa sua passagem pelo CCSP, rejeita um lugar e as hierarquias que definem o que é arte erudita, popular ou contemporânea.
Façamos um parêntese.
Produto da modernidade, os procedimentos de categorização dentro do sistema da arte obedecem ao mesmo processo de racialização efabulado pelo pensamento moderno ocidental.[2] Foi através dessa força expansiva, de seu poder de reprodução e multiplicação no espaço, submetendo tudo aquilo que estivesse ao alcance de seu horizonte ao seu universo de ideias, costumes, língua e leis, que a ordem colonial se sustentava em suas investidas ultramarinas. Uma visão segundo a qual a humanidade estaria dividida em espécies e subespécies – categorias distintivas por meio das quais se diferencia, separa e classifica hierarquicamente. Marca-se os corpos e a expressão que deles nascem. Inventa passados para determinar um destino e um único futuro.  Converte simultaneidade em não-contemporaneidade[3], de modo a não comprometer a sua pretensa universalidade.
Nessa crise de alteridade, ao organizar o discurso da racionalidade através da produção do conhecimento científico, cabe as instituições reproduzir esses sistemas de valores e suas estruturas produtoras da diferença que definem presenças e ausências, visibilidades e invisibilidades, ou rompê-las.
Assim, o que esse trabalho nos abre é a oportunidade de talhar um caminho que destitua esse modo de apreensão do mundo radicalmente determinista deflagrando por fim, a finalidade dessas palavras: ao invés de marcar no tempo um lugar para a experiência do outro, abrir espaço para que a experiência estética aconteça. Apenas como ela é.
Nascido nos anos 90, um fato curioso é que é em nome de Santídio que aparece a primeira imagem do Curral Comprido nas ferramentas de busca da rede mundial de computadores. Novo o bastante para dizer que esse lugar são pedaços, fragmentos, partes e contrastes. Jogo que revela as nuances entre preto e branco, enunciando como corpo negro, o que é pra si relevante. É quando cria permanência e dá continuidade ao rigor da tradição gravurista.
Isso não é um pássaro
Ponto final. Repetir essa frase algumas vezes.
E deixar livre aqueles que sabem voar.
Diane Lima é curadora independente, pesquisadora e diretora criativa. Mestra em comunicação e semiótica na PUC-SP, seu trabalho concentra-se em experimentar práticas artísticas e curatoriais multidisciplinares, desenvolvendo dispositivos de aprendizado coletivo com foco em processos de criação e produção de conhecimento. Em 2015 criou o AfroTranscendence, programa de imersão em processos criativos para promover a cultura afro-brasileira contemporânea. Entre os projetos mais recentes estão a curadoria da exposição Diálogos Ausentes (2016-2017) montadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, programa do Itaú Cultural que discutia a presença dxs negrxs nas mais diferentes áreas de expressão.




[1] Lança, Marta. Passado e presente se distinguem apenas pelo desgaste da madeira. 2018. Acesso em: http://www.buala.org/pt/afroscreen/passado-e-presente-so-se-distinguem-pelo-desgaste-da-madeira.
[2] Lima, Diane S. Da S. Lima. FAZER SENTIDO PARA FAZER SENTIR: Ressignificações de um corpo negro nas práticas artísticas contemporâneas afro-brasileiras. 2017. 200p. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Semiótica). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP.
[3]
SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (Orgs.) Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez. 2010.