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Curador

Onde estamos e para onde vamos
Claramente fascinado pela ideia de progresso, Alcides Pereira dos Santos, nascido em 1932 na cidade de Rui Barbosa, no interior da Bahia, colecionou em suas obras imagens que refletem seu encanto pelas coisas boas associadas à ideia de avanço tecnológico. Entre pinturas de paisagens e plantações e outras tantas representando fábricas, há toda uma série dedicada a meios de transportes.
Alcides, só Alcides, como veio a ser conhecido enquanto artista, pintou diversos modelos de carros, motos, embarcações e aeronaves. Sempre em telas retangulares de tamanho médio, medindo por volta de um metro de altura por um metro e meio comprimento. Essa escala curiosa de grandes retângulos servia o suficiente para comportar o desenho do veículo em questão, cuja figura se estendia aos quatro lados da tela, beirando as bordas, aproveitando o limite máximo do espaço. Além da figura extremamente detalhada inspirada na linguagem dos desenhos técnicos, porém com proporções inventadas e cores intensas, está também o fundo colorido. Nessas pinturas de veículos a soltura e a expressividade dos gestos que compõem esse fundo contrastam com a precisão das linhas retas que constroem as figuras da moto, do carro, do helicóptero. Os fundos são preenchidos com elementos pontilhados que sugerem retículas, como as presentes nas pinturas pop de Claudio Tozzi, Roy Lichtenstein ou mesmo de Sigmar Polke, tendo esse último certa vez declarado sobre esse símbolo da modernidade gráfica: “Eu amo retícula, eu sou uma retícula!”.
Tendo vivido durante o século XX, presenciou fatos relevantes da nossa história recente que, através de engenhosas tecnologias, apontavam para um futuro promissor e fascinante. Assistiu ao surgimento de diversos modelos de carro no país, com fortalecimento da indústria automobilística no governo de Juscelino Kubitschek nos anos 50, bem como aos lançamentos dos brancos e reluzentes foguetes americanos, da missão Apolo na viagem do homem à Lua no final dos anos 60. Além de ter convivido com toda a mitologia que cerca os submarinos, popularizados dentro da paranoica atmosfera da Guerra Fria e da cortina de ferro no pós-Segunda Guerra Mundial ou mesmo em séries de TV como Viagem ao fundo do mar.
Paralelamente às pinturas dos veículos de locomoção, há, no conjunto de suas obras, imagens que representam lugares como casas, praças, jardins e plantações, que formam um comovente retrato do país que ele conheceu. Além da Bahia onde nasceu e cresceu, morou também em Rondonópolis em 1950 e depois mudou-se, em 1976, para Cuiabá, onde passou a frequentar o Atelier Lvre da Fundação Cultural de Mato Grosso, e, por fim, mudou-se para São Paulo na década de 90. Sob o mesmo prisma de um maravilhamento futurista, pintou incríveis prédios de fábricas, igualmente cheios de detalhes do maquinário, chaminés e fumaça. Sua poética parece girar em torno do desejo de um mundo organizado, seguramente compartimentado em categorias envolvendo: veículos de lazer, veículos de guerra, plantações e indústrias.
Compartilho de minha parte um carinho especial pela organização das coisas da vida que busco representar em minha obra escolhendo imagens arquetípicas como a estrada, a montanha, a casinha e o laguinho. Derivam do mesmo repertório imagens de gotas, cachoeiras, gatos e outros animais, como símbolos dos tempos em que vivemos, baseados na mesma mitologia de progresso e de um suposto conforto que deveria resultar do esforço de se ordenar racionalmente a existência.  Um mundo confortável de paisagens montanhosas com estradas curvas, lagos e pedrinhas. Sempre gostei de carros e, como muitos da minha geração, cresci assistindo às corridas de Fórmula 1, acompanhando e torcendo pelos heróis Emerson, Nelson e Ayrton. Assim, desenvolvi um gosto especial pelos desenhos dos circuitos de corrida e pelas sofisticadas e coloridas pinturas de solo que servem de sinalização. Pensando nos veículos de Alcides, elaborei Pista I e Pista 2, pinturas-objeto recortadas em madeira com estradas asfaltadas para carros, motos e caminhões e com rios e lagos para barcos, balsas e submarinos.
Estradas, veículos e viagens fazem pensar numa sugestão metafórica de mudança. Deslocamento de um ponto a outro, sair de uma situação para outra, nova. Assim, podemos pensar que Alcides, que foi pedreiro, pintor de paredes, barbeiro e sapateiro, tenha alcançado através da sua arte um novo lugar. Sintetizando sonho e desejo nas imagens que produziu, mudou seu mundo, à sua maneira, generosamente compartilhando sua arte com todos nós.


Leda Catunda, 2018