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Curador

A FORÇA DO TRAÇO
José Bento Ferreira

A obra de arte pode abrir um mundo para o espectador. Certas imagens são portadoras de profundos significados coletivos. Por vezes se transformam ao longo do tempo, conforme a sucessão dos acontecimentos projeta novas perspectivas. Uma pintura abstrata sempre é um desafio: há sentidos ocultos? Ou será que nela não há nada além da aparência visual? Seria ela a própria recusa do sentido e do mundo? Nesse caso, recusamos o mundo em proveito de algo além da imaginação ou ficamos à beira do abismo, no nada?
Por trás das linhas e faixas verticais das pinturas de Teodoro Dias não há sentido algum. Nas cores vivas e pulsantes, nenhuma qualidade especial. Nem mesmo nos azuis e pratas de uma variante dos trabalhos recentes. Nas combinações entre as linhas, porém, nas variações entre os campos de cor que elas formam e nas diferentes intensidades dos traços verifica-se uma poderosa experiência de expressão, única em cada trabalho, apesar da semelhança entre eles, principalmente para um olhar apressado e superficial.
Imagens e obras de arte desempenham papéis importantes em diversas sociedades humanas, mas a manifestação da imagem tradicionalmente rompe o cotidiano, seja como prece, magia, lembrança ou representação de poder. O mundo globalizado, interligado por meios de comunicação de massa, principalmente em meio às ondas e nuvens da internet, infesta-se de imagens. A mais óbvia consequência dessa infestação é a banalização do contato com a imagem. A perda do caráter único da obra de arte (que Walter Benjamin chamou de aura) leva a uma crise da fruição quando a reprodução se dissemina de tal maneira. Imagens pulverizadas pelas infovias não são portadoras de significados, mas se prestam a uma avaliação visual instantânea análoga ao canto de sereia da mercadoria na sociedade de consumo. A experiência que proporcionam é da curtida e do match. Não há verdadeiro vínculo nem mesmo uma relação. Não há experiência estética, de sensibiliade, mas uma “anestética”, conforme formulação da filósofa Susan Buck-Morris: uma forma de “entorpecer o organismo, insensibilizar os sentidos, reprimir a memória”.
Ao se passar certo tempo diante de uma pintura de Teodoro Dias, é possível experimentar a obra de arte de modo inteiramente diverso daquele a que o olhar é adestrado pelo frenesi das infovias. Tempo é a palavra-chave, como escreveu Paul Klee: “espaço é um conceito temporal”. Se for possível permanecer diante da pintura por algum tempo, não em silêncio, mas sem prestar atenção aos ruídos, inclusive o deste texto (pare de ler este texto agora e observe a pintura), sem abrir mão de fazer fotos, uma vez que telas, tanto quanto lentes, tornaram-se extensões dos nossos sentidos, mas por ora sem compartilhar os aspectos da pintura que as fotos registram, guardando vestígios do percurso do olhar, se for possível conviver com um trabalho de Teodoro Dias (há pessoas que moram sob o mesmo teto e não convivem, é possível possuir uma obra de arte e não olhar para ela), as cores perdem sua individualidade e abre-se um universo de mundos possíveis em suas combinações, os tamanhos diferentes das faixas de cor produzem, uns entre os outros, uma musicalidade que lembra composições “minimalistas” de Philip Glass e Michael Nyman, com repetições que variam e variações das repetições. É possível perceber diferentes andamentos nos diversos tamanhos dos campos de cor, diferentes tonalidades nas variações das cores, não em si mesmas isoladamente, mas umas em meio às outras, no “entre”, verdadeiro objeto da arte de Teodoro Dias. Nessa sintonia com a pintura reside a antítese da alienação que anestesia o olhar.
Mais do que as pinturas anteriores, expostas em 2015, cujas faixas de cor apresentavam sutis extravasamentos, marcas da mão, as pinturas recentes contaminam o espaço ao redor. Pinceladas mais explícitas faziam com que as pinturas se voltassem para dentro de si mesmas, ao passo que a estarrecedora precisão dos traços das novas pinturas, produzidas com têmpera de caseína (pacientemente produzida pelo artista) sobre compensados de madeira em dimensões maiores, por vezes pelo contato da ponta de prata sobre o fundo branco, provoca o olhar a se manter na modalidade instaurada pela pintura mesmo quando se volta para o mundo ao redor dela, isto é, sem ver o espaço como um conjunto de objetos, mas percebendo a espacialidade como uma somatória das diferenças.
Sabemos que determinada peça de roupa pode ser bonita, mas que, combinada com outra, produz um efeito indesejável, ou vice-versa: uma peça simples pode ser valorizada por uma combinação feliz. Essa experiência comum torna-se uma viagem sem volta quando amplificada pelo mundo que se abre a partir do momento em que as combinações de campos de cor contaminam o mundo ao redor. Se o valor de cada campo de cor das pinturas de Teodoro Dias se dá pelo conjunto (como as peças de roupa) e o próprio espaço acionado pela obra pode ser percebido dessa maneira, tudo se passa como se o modo como percebemos o mundo, ou nossa maneira de estar no mundo, devesse ser revisto a partir dessa perspectiva. Isto é, como afirmou o filósofo Maurice Merleau-Ponty (a partir de Proust), não vejo esse vermelho isoladamente, mas como o resultado de uma somatória de todos os vermelhos anteriormente vistos e sedimentados em meio a toda uma experiência acumulada que toma corpo na noção de vermelho, que, não sendo um conceito, mas algo como o objeto de uma satisfação universal sem conceitos (transpondo o juízo estético kantiano para o mundo percebido), está viva, sempre se recompõe a cada visada, a cada nova experiência do vermelho, ao mesmo tempo que se constitui ela mesma, a noção, como condição de possibilidade da observação do vermelho. Nesse vivo contato entre a experiência acumulada e a sensação haveria uma reciprocidade análoga à da mão que toca e é tocada ao mesmo tempo: indistintamente sujeito e objeto.
Há vinte anos Teodoro Dias passou a se dedicar exclusivamente à pintura depois de trabalhar por outros vinte anos como agrônomo. Muitas das cores que aparecem nos seus trabalhos provêm de tintas produzidas a partir de diversos tipos de solo coletados por ele e armazenados meticulosamente em frascos rotulados com informações sobre os locais de origem. “Olho muito o sol, a terra, o contraste entre a terra e a vegetação”, afirmou ele, “a minha referência é a natureza.” Algo do olhar do agrônomo, inserido no contexto das pinturas, entremesclado nas combinações dos campos de cor, ressurge para o espectador das pinturas. Não é por causa da agronomia que sobrevivem nas pinturas as “cores da fazenda”, é para que pudesse sobreviver a sua referência à natureza que aquele agrônomo via o mundo com um olhar especial, só dele.
Por causa da sensibilidade para as diferenças, essa estética moderna e contemporânea, a experiência acumulada aflora em forma de pintura, uma vida muda adquire comunicabilidade graças à força do traço, às combinações entre as cores e ao ritmo dos campos de cor. Em sintonia com a pintura de Teodoro Dias estamos em contato com uma abertura para as relações entre as coisas em lugar de considerar o mundo como o recipiente de coisas fechadas em si mesmas.