A+ A-

Curador

Em algum momento, em meados do século XX, os olhos de críticos e marchands das artes plásticas brasileiras pareciam muito atentos a tudo aquilo que poderia surgir em lugares até então improváveis. Essa gente, que andava em busca dos impulsos criativos que definiriam uma produção cultural própria brasileira, retirava os seus olhos dos palcos tradicionais das artes plásticas - museus, salões e galerias - em busca de formas de expressão artística que pudessem emergir do povo sem passar pelo filtro academicista e elitista dos palcos tradicionais da crítica. Fora notável a descoberta de um pintor como Volpi que, de pintor de paredes, converteu-se em grande cânone da pintura nacional; ou mesmo da descoberta da pintura de Heitor dos Prazeres, nos anos de 1940 no Rio de Janeiro. Esses exemplos abriam as portas para que os observadores das artes pudessem reconhecer naquilo que havia de mais simples – e até mesmo precário – soluções artesanais riquíssimas, que poderiam traduzir a realidade, a expressão e o imaginário de grandes parcelas da população brasileira com maior autenticidade e precisão. Os marcos fundamentais dessa atenção em relação à produção artística popular brasileira foram as exposições “Bahia no Ibirapuera”, em 1959, e “A Mão do Povo Brasileiro”, em 1969. Ambas foram idealizadas pelo casal italiano Lina Bo e Pietro Maria Bardi, que havia chegado ao Brasil em 1946 e, por iniciativa de Assis Chateaubriand, haviam criado, em 1947, o Museu de Arte de São Paulo (MASP). Contrapondo-se à idéia de que existe uma arte “popular”, “primitiva”, “folclórica” ou “espontânea”, Lina e Pietro consideravam existir apenas a plenitude da expressão estética do homem, “que não mais admite divisões em categorias ou compartimentos estanques” E foi justamente Pietro Maria Bardi, diretor do MASP, que, em 1952 descobriu nas ruas de São Paulo – diz-se que no Viaduto do Chá – o trabalho de Agostinho Batista de Freitas, artista que vendia desenhos como forma de sobreviver. Já naquela época, chamava a atenção em sua obra o talento na representação das paisagens urbanas. Pietro fez-lhe a encomenda de uma pintura, deu-lhe tintas a óleo e tela e colocou-o sobre um edifício no centro de São Paulo. Dali, Agostinho pintou a vista da cidade de São Paulo, quadro que permaneceu com o “professor” Bardi até seus últimos dias. O “professor” Bardi via em Agostinho grande talento na composição de perspectivas urbanas e na captura de cenas cotidianas da cidade; chamava-o de o “Utrillo Brasileiro”, em alusão ao pintor francês Maurice Utrillo3, da Escola de Paris do início do século XX. Utrillo era um mestre em retratar as paisagens do bairro de Montmartre em Paris. Agostinho fazia o mesmo em São Paulo. Com o passar do tempo, Agostinho passou a retratar não só a cidade de São Paulo, mas também paisagens de outras cidades - de fazendas, da roça, de festas populares, bichos e plantas. Trabalhos que nos remetem à obra de Henri “Douanier” Rousseau4, pintor francês do final do século XIX e início do XX. Agostinho Batista de Freitas remanesce hoje como um observador atilado, e insere-se na linhagem direta dos grandes observadores da terra Brasil, aquela que vai de Franz Post e Carlos Julião até Alberto da Veiga Guignard. Agostinho não foi treinado nas técnicas clássicas da pintura: preparava suas telas e usava as tintas a seu bel-prazer. Mas fazendo tudo à sua maneira, foi um grande paisagista que conquistou, nas palavras de Lina, “o direito à Poesia”5.


João Grinspum Ferraz