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Curador

Júlio Villani – Por um fio

Do bestiário de Artur Pereira aos bichos de Lygia Clark, da Baleia de Graciliano Ramos ao Burrinho Pedrês de Guimarães Rosa, não faltam animais prodigiosos na arte brasileira. Cumpre agora integrar as criaturas de Júlio Villani a essa fauna – tomando-se porém o cuidado de preservar sua singularidade no seio dessa família imaginária. Sua singularidade ou, melhor dizendo, seu hibridismo fundamental, que se dá em muitas camadas. Elas são objets trouvés, à Duchamp, mas são também um exercício risonho dos dons de metamorfose que são próprios da arte. São herdeiras de certo surrealismo parisiense, mas parecem nos remeter às memórias sensoriais de um menino do interior, que observa de sua própria perspectiva os objetos da casa, da cozinha, da fazenda. Sendo tridimensionais, são esculturas – mas não encenam para quem as contempla o espetáculo do escultor que golpeia a ganga bruta e extrai a forma a partir do informe; em vez de formão e cinzel, o alicate, o martelinho, o arame, a solda discreta, a fim de dobrar, prender, amarrar e pendurar. Nesse último sentido, muitas delas são móbiles à maneira de Calder – quer dizer, são e não são, pois continuamos a ver as partes heteróclitas que as constituem, como num desenho de coelho-e-lebre. E nisso, aliás, são brasileiríssimas, filhas do jeitinho e da gambiarra elevados à condição de arte, dotadas daquela graça etérea e desajeitada que as petecas têm. Se nascem de algumas operações manuais simples, nem por isso são simplórias: adivinham-se em cada uma delas a longa reflexão plástica, o mergulho na memória infantil e ainda a malícia sutil que se diverte com a alteração das proporções ou com o desvio das funções e dos usos originais dos objetos que servem de matéria-prima. Estamos no coração do campo artístico moderno, sem dúvida, mas estamos também, numa reviravolta deliciosa, em terras americanas: mestre do entorse gentil, Villani prolonga, sorridente, a antiga tradição do trickster, aquela divindade malandra, muitas vezes de feição animal (coiote, corvo, raposa) que, em tantas mitologias do Novo Mundo, se compraz em ludibriar os demais deuses, subverter o destino fixado e abrir espaço para a vida e a transformação.

Por Samuel Titan