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06/09/2012 | Contato áspero com o mundo | O Estado de São Paulo - CADERNO2 - Por Rodrigo Naves

Na criação de Artur Bispo do Rosário, a palavra adquire novas realidades

Nas artes visuais, Bispo é uma das figuras de maior destaque entre artistas com uma origem diversa das tradicionais
02 de setembro de 2012 | 3h 09

Rodrigo Naves - O Estado de S.Paulo

É difícil não se comover com os esforços de homens e mulheres brasileiros que, contra todas as expectativas, criaram condições para dar forma a sua experiência do mundo: Arthur Bispo do Rosário, Raphael Domingues, Carolina de Jesus, Emygdio de Barros, Cartola, Dona Isabel, Artur Pereira, José Bezerra, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Cícero Alves dos Santos (Véio), entre tantos outros. Porque não basta a necessidade de ampliar o raio de ação de nossas experiências para que alcancemos possibilidades reais de comunicação. Para isso é preciso adquirir os meios adequados de expressão, sejam eles cores, sons, palavras ou madeira.
Um país tão permeado por desigualdades como o Brasil produziu um sem-número de artistas e atletas - acho interessante aproximá-los - de origem pobre que encontraram um modo de superar as adversidades sociais por meio de maneiras muito diferentes de expressão. Se a injustiça social não encontrou entre nós - ao menos até os anos 80 - uma resposta política efetiva, parece fora de questão que artisticamente nosso meio cultural seria muito menos rico sem a contribuição daqueles que teriam tudo para permanecer silenciosamente à margem.

Há pouco tempo passei a ter mais contato com a produção artística considerada popular, virgem, bruta ou ingênua. Não acredito que toda ela tenha características comuns, além da relativa exclusão a que se viu conduzida. Tampouco penso que as dificuldades em meio às quais essas obras foram produzidas justificaria uma avaliação relapsa delas, ainda que muitas vezes não saibamos situá-las bem.

No entanto, há nelas elementos recorrentes: uma experiência mais áspera do mundo, uma distância em relação à ideia de uma realidade convertida em imagem (pressuposto de parte considerável da arte contemporânea) e a ausência de respeito a cânones e normas que, bem ou mal, acabam permeando uma boa parcela da arte institucional. Ao que tudo indica, foram essas características que conduziram à escolha de Arthur Bispo do Rosario (1911- 1989) para esta Bienal.
Nas artes visuais, Bispo é uma das figuras de maior destaque entre os artistas com uma origem diversa das tradicionais. O fato de se afastar das técnicas artísticas tradicionais - pintura, desenho etc. - o aproximou, ao menos exteriormente, de questões e formas contemporâneas, aumentando o interesse por sua obra.

A trajetória de Bispo tem muito da criação de um mito. "Um dia simplesmente apareci no mundo", ele afirmava. Era filho de Deus, protegido da Virgem Maria e sua tarefa neste mundo consistia em recriá-lo para um acerto de contas no dia do Juízo Final. Foi marinheiro e pugilista. Cuidou dos bondes da Light e foi vigia de uma clínica médica. Teve uma primeira internação em 1938, recebeu por muito tempo o apoio da família de seu advogado, José Maria Leone e, a partir de 1964, praticamente viveu na Colônia Juliano Moreira, onde realizou a maior parte de sua obra.

Acredito que, bem ou mal, sua reconstrução do mundo teve mais sucesso em seus bordados - com os quais dava corpo a palavras, a figuras e a motivos geométricos -, mantos, estandartes e miniaturas do que nos trabalhos que, por conveniência, chamaríamos de assemblages, colagens ou apropriações. Bispo do Rosario se via obrigado a renomear ou a refazer pessoas, coisas e crenças. Tudo o que se "transfigurava" pela atividade de suas mãos adquiria uma espiritualidade nova, tornava-se uma matéria tingida por uma espiritualidade arcaica, rigorosa e severa. Mas a mera justaposição de canecas, sapatos, botões, pentes ou colheres a meu ver não conseguiu produzir uma transformação condizente com seu projeto. Talvez justamente porque nesses trabalhos suas mãos não mais procuravam refazer as coisas e, sim, apenas ordená-las.

Curiosamente, creio que nenhum outro artista brasileiro - Hélio Oiticica talvez fosse movido por ambições semelhantes - tenha lidado com questões tão amplas, com interrogações tão complexas, ainda que se apoiassem num cristianismo ortodoxo e intolerante. O mesmo cristianismo que o levava a jejuns frequentes, à abstinência de carne, álcool e tabaco, ao moralismo no julgamento das mulheres.

Nos seus bordados - que podiam gravar compulsivamente nomes de pessoas, passagens religiosas ou textos publicitários -, a palavra adquiria uma nova realidade. Difícil não pensar no Evangelho de São João ao olhar muitos desses objetos: "No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. (...) E o Verbo se fez carne e habitou entre nós". E a combinação, nos bordados, de passagens mais literárias ("eu vou passar revista corpos homens cahidos carbonizados e os mortos reverter vossos corpos...") com passagens quase pop ("alpargatas havaianas", "limpar ouvido cotonetes", "dez moedas 10 centavos e um cruzeiro e um conto") dá a seus bordados e estandartes uma graça que alivia em parte a gravidade de sua empreitada na terra.

A realidade rude que Bispo dava às palavras poderia apontar para uma espiritualidade nova. Estou convencido de que as interrogações levantadas por seus trabalhos necessariamente supunham um pensamento religioso de valor duvidoso para a realidade de nossos dias. E foi o esforço para materializá-las de uma maneira nova, à altura de suas ambições, que livrou seus trabalhos de uma carolice que poderia pô-los a perder.

FONTE: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,na-criacao-de-artur-bispo-do-rosario-a-palavra-adquire-novas-realidades,924814,0.htm




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