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26/06/2012 | Samico Incendiando a Imaginação | Caderno 2

Samicoincendiando a imaginação

Artista que une histórias ancestrais com cultura popular está entre os grandes gravadores do País
26 de junho de 2012 | 3h 08

CAMILA MOLINA -O Estado de S.Paulo

"Está frio aí?", pergunta o artista Gilvan Samico, que chegaria ontem a São Paulo para inaugurar, na Galeria Estação, uma exposição de gravuras que fazem dele "o maior gravador brasileiro de todos os tempos", como não só define o escritor Ariano Suassuna, seu amigo de poética do Movimento Armorial. Samico, que acaba de completar 84 anos, está um pouco "amolecido", diz, com uma enfermidade que vem tratando -mas já no segundo minuto de conversa com ele por telefone, desde Olinda, onde vive, o artista começa a brincar, fala de forma generosa sobre sua vasta trajetória.
As xilogravuras de Samicosão raras, não apenas pelo fato de o artista realizar somente uma obra -ou no máximo, duas -a cada ano. "O que faz da arte deSamicouma grande arte, elevada ao mais alto patamar da criação gráfica ou pictórica, é que a sua busca não se limita ao campo referente da literatura ou da arte erudita conhecida como tal, mas tem seu êxito na construção original de uma potente invenção que se abastece tanto de histórias ancestrais como da cultura popular", define o crítico WeydsonBarros Leal num dos textos do livro Samico(Editora Bem-Te-Vi, 96 págs., R$ 190), que será lançado hoje, com a presença do gravador, na abertura de sua mostra na Galeria Estação.
A exposição reúne um conjunto de 16 gravuras, realizadas por Gilvan Samicoentre a década de 1990 e os anos 2000. Tem ainda um diferencial, a exibição de duas matrizes de madeira entintadas (de duas xilogravuras com edições já esgotadas) criadas pelo artista, numa maneira de apresentar seu meticuloso ofício. "Não sei fazer nada com pressa. Quando vejo, o ano terminou. Na maioria das vezes faço uma gravura por ano, mas nesses últimos tempos, tenho feito duas. Não vê que estou ficando mais criança?", brinca Samico. "Se assim consigo dar a qualidade que quero, vamos nos conformar com isso. Tem gente que diz que sou preguiçoso: Sou devagar", ele continua. "Atualmente, estou trabalhando numa matriz, dessas que costumo fazer", conta Samico, que gostaria de gravar usando apenas a madeira pequiá-marfim. "Ela é clara e também dura, dá um bom corte. Mas não a tenho, entrou em extinção", diz. "Arranjei um substituto parecido, uma madeira que tem um nome popular aqui (no Nordeste), amarelo-cetim, como o tecido".
De seu sobrado na Rua São Bento, em Olinda, Samicovai sempre pedindo "perguntas fáceis" -e se recusa a ser chamado de "senhor". "Trabalho com duas possibilidades: a primeira, criar a partir de uma lenda ou algo que já li; a outra é a criação que independe disso, uma coisamais pessoal", conta o artista. Histórias bíblicas, por exemplo, se misturam a referências ao Romanceiro Popular Nordestino que Suassunaindicou a ele no início da década de 1960 -o que seria o caminho de mistura do erudito com a cultura do povo, base do Movimento Armorial, na década de 70, liderado pelo escritor e do qual Samicofoi "uma estrela de primeira grandeza". Mas a "coisa pessoal", afirma o gravador, "não vou a lugar algum buscar". "O título aparece depois da gravura pronta", diz -e muitos deles começam com a palavra Criação para depois serem acompanhados de um "subtítulo" explicativo. Sua obra é figurativa, uma espécie de construção a partir de uma "arquitetura dos sonhos ou uma semiologia do fantástico", define WeydsonBarros Leal. É uma gravura que "incendeia a imaginação", afirma Suassunano prefácio do livro Samico.
Luz. Nascido no Recife, Gilvan Samicoqueria, na verdade, ser pintor -hoje, ele brinca que não sabe se o mundo perdeu um pintor ou ganhou um gravador, ou "se não ganhou nada". "Sempre me preparei para ser pintor, mas entrei num grupo que inventou um clube da gravura, algo que jáhavia no Rio Grande do Sul e outros que tinham preocupações nesse sentido. Mas o fato é que aqui já tinha uma tradição muito grande popular de gravar namadeira, até por uma questão prática", conta o artista. A arte gráfica também é mais intimista e Samicopodia realizá-la em um canto de sua casa. Ao ser premiado ainda pela gravura -um dos prêmios, concedido por Aloísio Magalhães -, cada vez mais o artista foi se "comprometendo" com ela.
Nos anos 50, Samicomudou-se para São Paulo e o encontro com o gravador LivioAbramofoi o primeiro "sim" e "quero" de sua carreira. Depois, foi ao Rio, onde Oswaldo Goeldise tornou seu mestre. "Minha gravura, até o fim dos anos 50, vinha muito noturna, mas eu achava lírica. Considero o expressionismo altamente pessimista e houve uma época em que eu quis escapar dele. É coisa de europeu, de frio, de países que estavam em guerra, de melancolia, algo esquisito. Por isso estou com medo de São Paulo", Samicojá logo desarma. Ele também brinca ser do signo de Gêmeos, um ser antagônico que é pessimista por natureza, mas que não queria calcar sua obra de "dramas dos homens". "A carga noturna começou a me incomodar e, no diálogo com Suassuna, de volta ao Recife, ele me sugeriu que desse uma passada no que tínhamos aqui de gravura popular. E esse negócio bateu na minha cabeçacomo pancada."
Na época, na procura de um "filão brasileiro", Samicodeixou a luz entrar em sua obra. "Fui até o miolo do sol." Dos anos 70 para cá, a temática do cordel foi amenizando e aquele lado pessoal cada vez mais ganhando terreno em suas criações. Hoje, Samicosentencia. "Minha gravura, agora, não é dia, nem noite. Ela é tarde, um tom mais ameno."




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