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14/03/2010 | Folha de S. Paulo - Ilustrada -

Galeiristas convidam grifes da arte contemporânea para assinar catálogos.
Sandália de couro nos pés, toco de madeira nas mãos, Cícero Alves dos Santos tem os olhos baixos quando a reportagem da Folha chega à Galeria Estação, em Pinheiros. Passam-se alguns segundos até que ele erga o rosto e, após uma última talhada no miúdo tronco de imburana, explique: "Se fico parado, fico meio neurótico. Tô sempre fazendo uma coisinha. Desde menino sou assim. Quando tinha 5 anos, trabalhava com cera de abelha e, escondido do meu pai, modelava uns bonequinhos."
É assim, frase ao léu, que Santos, conhecido como Véio, encurta o caminho que leva à origem da chamada arte popular. Feita por autodidatas vindos das camadas simples da população, essa arte, de difícil conceituação, não raro é tomada por artesanato ou, no máximo, como manifestação pitoresca. Naify. Primitiva.
Pois Véio, na última quita-feira, ao conduzir uma visita guiada seguida de coquetel, começava a desvencilhar-se dessas palavras para saltar para outro verbete: arte. "Era um antigo sonho. Tratar esses artistas como artistas. E ponto.", diz a galeirista Vilma Eid, artífice do movimento que buscar dar novo status à arte popular.
Ela chamou o pintor Paulo Pasta para escrever sobre o ex-cortador de cana José Antonio da Silva (1909-1996), o curador Rodrigo Naves para refletir sobre o escultor sertanejo José Bezerra e Paulo Monteiro para avalizar Véio: "Com essas aproximações, estamos chegando a um novo público."
Seja ou não graças à mão de verniz, a arte popular tem visto os preços subir. Em São Paulo, onde durante muitos anos uma só galeria especializada existia, a Brasiliana, hoje a outras duas: a Estação e a Pontes. "Proporcionalmente, foi a arte mais valorizada nos últimos cinco anos", diz a leiloeira Soraia Cals. Até 2005, essas obras não ouviam o barulho do martelo. Hoje, representam 15% das peças leiloadas. Mas o dinheiro ainda é mínimo.
Mesmo os nomes mais valorizados, como os escultores Vitalino (1909-1963) e G.T.O. (1913-1990) e os pintores Heitor dos Prazeres (1898-1966) e Silva, custam pouquíssimo se comparados à arte dita erudita. Um quadro de Prazeres não ultrapassa os R$ 40 mil. Uma boa peça de Vitalino, o colhedor de algodão que viu seus bonecos partirem das feiras de Caruaru para os salões de arte, sai, no máximo, por R$ 25 mil.
"Há um preconceito em relação à arte feita por quem está na base da pirâmide social", diz Roberto Rugiero, da Brasiliana. "Tanto que, muitas vezes, quem compra essas peças ainda as deixa reservadas à casa de campo. Mas houve um tempo em que não era assim."
Rugiero refere-se ao modernismo e ao desejo de fusão entre popular e erudito. Foram os modernistas que festejaram Silva e Vitalino e se deixaram levar por temas tipicamente populares - basta lembrar dos sambistas de Di Cavalcanti e dos retirantes de Portinari.
"Não consigo pensar em popular ou não popular, e sim em bons ou maus pintore", diz Pasta. "O Silva tinha faro para a questão do plano, inteligência do olho, intuição." Parece que o diálogo existente nos anos 1930 e 1940 e depois silenciado volta a sussurrar. "Passamos muito tempo vendo essa arte como pitoresca", diz, numa espécie de mea-culpa, o crítico Rodrigo Naves. "Me parece que a arte contemporânea está cada vez mais acadêmica, repetitiva. Também por isso a originalidade do Zé Bezerra me atraiu."
A galeirista Edna ontes arrisca outra explicação: "A arte popular está sendo beneficiada pela valorização da brasilidade". Rugiero, por sua vez, acha boas as adesões, mas mantém um pé atrás. "A ausência de uma referência crítica dá margem a blefes. Outro risco é transformar o artista em mico de circo e enxergar autenticidade no que é só repetição."
Nuno Ramos, que não havia pousado os olhos sobre arte popular até ser apresentado a Bezerra, gostou do que viu, mas teme generalizações: "Temos que tomar cuidado com o discurso populista do 'vamos dar uma chance' ou 'olha que história incrível a dele'".
Esse temor estende-se, inclusive, aos artistas. "Tem vezes que só querem que a gente fale que trabalhou na lavoura, essas coisas" diz o pintor Nilson Pimenta que, quando menino, na roça, desenhava em cercas e árvores e hoje vive de arte. "Mas se virem também o que eu pinto, aí já tá bom."




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