Notícia

15/05/2009 | Revista Versatille

Imaginário brasileiro

Chamá-la de arte popular é quase como diminuí-la. Não que popular seja ruim, afinal fazemos parte "do povo" e povo é diferente de pouco ou pobre. Infelizmente, o termo soa pejorativo nos ouvidos de muitos brasileiros ignorantes de atributos para entendê-la. Porém, é a criação de artistas íntegros e genuinamente nacionais que vem atraindo a atenção de colecionadores estrangeiros. E com razão, pois é única no mundo e traduz o viver e as raízes de um povo tão multicultural quanto o nosso. Pena que ainda não temos olhos para vê-la.

Quando jovem, após um ano de casada, a empresária Vilma Eid ganhou da mãe o direito de escolher uma obra de arte como presente. Era mais ou menos 1970. Em uma antiga e extinta galeria na Oscar Freire, em São Paulo (SP), ela entrou e logo teve o olhar raptado por um quadro simples e muito puro - uma pintura com dois boizinhos. Tratava-se de um trabalho do primitivista José Antonio da Silva. Porém, foi desaconselhada pelo marchand. Pelo visto, o vendedor considerava mais interessante colocar na sala de estar um nome contemporâneo. "Mas eu nunca esqueci aquele trabalho... Na primeira oportunidade que tive, busquei conhecer o José Antonio da Silva e até hoje sou colecionadora dele. Aquela foi a primeira fagulha consciente de ter o meu olhar voltado ao imaginário do povo brasileiro.", recorda Vilma. Ela, que certamente é hoje uma das maiores proprietárias de acervo de arte popular nacional, acabou reunindo tantas peças que, há 15 anos, deu-se por conta de que tinha o cerne de um museu dentro de casa.
"Abri a Galeria Estação, pois queria deixar tudo à mostra para visitação pública. Porém, logo as pessoas começaram a pedir para comprar peças e, hoje, também vendemos", explica. Contudo, esse segmento da arte não recebe espaço ou reconhecimento adequados. Não existe sequer um museu que una a produção artística popular no País. Desde 2006, O Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro tenta somar esforços para promover essa face da nossa cultura. Vilma acredita que a arte popular nunca foi mostrada como a contemporânea, a moderna, a acadêmica. Justamente por isso, por não ter sido colocada no mesmo nível de comparação, não é compreendida. Não há sequer um livro sobre o assunto. A única obra, heroica, é de Lélia Coelho Frota, o "Pequeno Dicionário da Arte do Povo Brasileiro." "O maior erro que as pessoas cometem é confundir arte popular com artesanato, com aquelas 'coisinhas bonitinhas' de levar para a casa de praia ou de campo", esclarece.

A pureza do cotidiano

Na verdade, a arte popular é pura - qualidade que definitivamente está em falta nos dias em que vivemos. Não só pela beleza sentimental de saber que os artistas que a realizam são autodidatas, não tiveram uma educação formal. Muitos são de fato analfabetos, ou filhos de agricultores e pessoas humildes. O que os ressalta de verdade é o afastamento de influências externas ou estrangeirismos. Culturalmente, na era da globalização e da internet, manter-se íntegro é um dom. "Esses artistas, de um modo geral, retratam seus cotidianos e têm uma linguagem própria, ainda não contaminada", revela a empresária. Vilma também preside o Instituto do Imaginário e sonha em proteger essa "cultura viva" de nosso País. "Hoje, quem compra e coleciona é gente sofisticada de alma mesmo. Porém, a maioria é de fora do País, o que me deixa muito triste", conclui.


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