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14/03/2018 | Revista Bravo - Escultor sergipano Véio exibe cerca de 270 obras em madeira no Itaú Cultural, em São Paulo

Por Andrei Reina

Colecionador de si
Escultor sergipano Véio exibe cerca de 270 obras em madeira no Itaú Cultural, em São Paulo

“Se ela fosse amputada ali”, Véio aponta para uma árvore do outro lado da Avenida Paulista, “eu via quantas obras ia fazer, o nome e a forma de trabalhar com elas”. Fala sem tirar os olhos do tronco, observado através das paredes de vidro. “Se eu olhar eu já tenho em mente o que é que pode sair dali”.

Do lado de dentro do prédio, no Itaú Cultural, cerca de 270 peças produzidas com esta prontidão criativa ocupam três pisos na exposição Véio?—?A imaginação da madeira a partir de hoje (14/3). De longas criaturas e totens a minúsculas obras talhadas com precisão cirúrgica, a mostra é representativa do corpo de obras do escultor de 70 anos.

Cícero Alves dos Santos nasceu em Nossa Senhora da Glória, município com menos de 50 mil habitantes no Alto Sertão Sergipano. Nos arredores da cidade, mantém o sítio Soarte, onde trabalha e guarda o seu acervo. “Hoje eu posso dizer que tenho mais de 17 mil peças”, diz abrindo os braços fortes. “E não são peças-cópia, são criações minhas”, aponta para si. O prolífico escultor é um dos principais artistas contemporâneos do país, tendo obras exibidas em diversas cidades do mundo, incluindo em individuais na programação paralela da Bienal de Veneza, em 2015, e na Seeds Gallery de Londres, no ano seguinte.

Moço véio

“Vou me ofender se me você me chamar de Novo”, ri o artista quando pergunto se posso chamá-lo pelo apelido, que em seguida explica. “Na minha infância, com 5 anos, eu ficava ouvindo as histórias do pessoal antigo. Não tinha televisão, não tinha informação, não tinha nada. Nem escola tinha. E ali eu, pequeno, ficava ouvindo eles contando aqueles causos. Eu gostava muito das histórias que eles contavam, do passado. E os meus amigos diziam: ‘Parece um véio no meio dos outros!’”, conta.

Da alcunha que carrega desde cedo Véio diz sentir a obrigação de preservar a memória dos antigos e do povo sergipano. “Com a evolução do nosso desenvolvimento tudo foi saindo: as histórias foram se apagando, os cordéis desaparecendo, os idosos foram morrendo?—?e o acervo que eles deixavam também”, diz. A partir desses materiais guardados ao longo do tempo surgiu o Museu do Sertão, mantido pelo artista em seu sítio.

“Tive esse trabalho de procurar tudo isso pra preservar essa história do homem primitivo em homenagem a eles”, explica. “Como foi que ele começou? Por que ele chegou? Quais foram as razões de ele construir no sertão, que ainda hoje não tem água?”, perguntava-se. “Eu fui em busca disso aí”.

Algumas das peças da coleção?—?entre ferramentas antigas, utensílios domésticos e máquinas rudimentares?—?podem ser vistas no piso da exposição que leva o nome do museu.

Bestiário

As obras de autoria de Véio exibidas no Itaú Cultural têm origem não só no seu próprio acervo, mas também de coleções particulares. “Foi feito um meticuloso levantamento por coleções paulistanas, cariocas, duas coleções em Maceió, e na própria coleção do artista”, diz Agnaldo Farias, curador da exposição ao lado de Carlos Augusto Calil. “A ideia era fugir do material mais conhecido, já apresentado em mostras anteriores, o que não nos impediu de incluir algumas delas, de qualidade indiscutível”.

As peças variam em tamanho e na qualidade das madeiras, que Véio tipifica como fechadas ou abertas. As primeiras são aquelas curvilíneas, retiradas da natureza já com traços expressivos?—?fechadas para a ação do artista, portanto. Nesses casos, são aproveitadas as formas como encontradas, em seguida aperfeiçoadas com retoques e pintura. Já a madeira aberta, pelo contrário, têm menos curvas e volteios, possibilitando (e exigindo) do escultor um número maior de cortes, que Véio executa conforme sua imaginação.

A escala das obras também é bastante diversa. No primeiro piso da mostra, denominado Assombro, estão esculturas maiores. Bichos quadrúpedes e coloridos, itens do bestiário de Véio, compõem uma fauna fantástica logo na entrada. Ao lado, criaturas em vermelho e branco, semelhantes a veias gigantescas, ganham pernas e parecem prestes a se mover.

“Que bicho é esse que eu nunca vi?”, perguntam ao Véio com frequência em seu sítio. “O bicho que você nunca viu, é esse aí mesmo”, ri-se. E “todos têm vida”, garante. “Eu digo que aquilo ali é uma cópia da gente. Vai nascendo peça, vou botando peças novas, aquelas mais velhas vão ficando e eu deixo, porque aquelas que estão mortas, acabadas, são um retrato da gente”, conta. “Quando vai ficando velho, o valor vai diminuindo, o cansaço vai chegando… até, se Ele chamar, ‘ir pra lá’. É uma forma de mostrar que a arte tem vida?—?e a vida muitas vezes não é valorizada”.

Entre os bichos nunca vistos, esguias peças de azul e vermelho vivos, cujas formas evocam membros decepados ou paus ambulantes, e grandes totens coloridos completam o conjunto, que imprime depuração formal?—?com traços e cores mínimos, voltados antes à precisão que ao exagero?—?em matéria bruta.

“Véio tem um imaginário espantoso e irrefreável”, argumenta Agnaldo Farias, que dá o exemplo dos “bichos e seres estranhos que ele enxerga em galhos e troncos, as sobras do seu sertão, um território devastado e que ele vive para fazer reviver”. Segundo o curador, o artista “demonstra que a infinita plasticidade dos objetos coincide com a infinita plasticidade de seus olhos e mãos”.

A precisão do escultor é ainda mais notável nas pequeninas esculturas, algumas delas minúsculas, exibidas no piso denominado Nação lascada. Véio conta que para fazer essas obras, que em alguns casos têm o tamanho de um palito de dente, foi preciso criar ferramentas próprias. Estão ali bichos e cenas do imaginário nordestino, cujo teor figurativo e maestria técnica não subtraem interesse. “As peças minúsculas”, diz Agnaldo Farias, “se por um lado encantam pelo virtuosismo, por outro só foram escolhidas porque trazem em si a mesma força poética das outras”, como se vê na série Os cão do meu inferno, formada por pequenos diabos pintados em preto e vermelho.

Colecionador de mágoas

As aspirações artísticas de Véio remontam à sua infância, mas pouco se preservou dos seus anos de formação, já que as esculturas que fazia então, com cera de abelha, eram destruídas por ele mesmo quando um adulto se aproximava. “Na época, há 60 anos atrás, no sertão, o menino tinha que brincar de cavalo-de-pau, tinha que pegar de peito [brigar], pular, essas coisas”, conta Véio, que dispensava as estripulias para criar sozinho. “Ali eu fazia a minha imaginação, fazia bichinhos que eu nunca tinha visto, fazia figuras humanas, aquelas pessoinhas magrinhas. E eu ficava ali sem amizade com ninguém, concentrado, e para os meus pais eu estava brincando de boneca”.

“Ali já era uma forma de eles verem que eu não estava assumindo o papel de homem, estava assumindo o papel da mulher. Como eu não queria levar pancada, quando eu via que vinha alguém, a cera era fácil de desmantelar”, continua Véio. “Eu levei muito tempo trabalhando escondido, acho que é um trauma”. Essa marca indelével legou ao artista uma obstinação. “Um dia eu vou ter minha coleção”, repetia para si.

Hoje Véio vive rodeado de suas criaturas?—?e se relaciona com elas de maneira afetiva, a ponto de recusar dinheiro a quem chega em seu sítio querendo comprá-las. “Eu não sou um comerciante”, ofende-se. “Eu sou um colecionador das minhas mágoas e do meu trabalho. O que eu não pude ter na cera, eu tenho na madeira”.

Segundo a célebre formulação de Euclides da Cunha, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Véio certamente o é, como o demonstram os braços rijos colados no corpo atarracado e a firmeza de seu pensamento, que expressa sem constrangimento ou afetação. Mas a força do sertão está acompanhada de uma sensibilidade incomum no artista, revelada tão logo nos deparamos com suas esculturas ou ouvimos um de seus causos. Como um testemunho contra a brutalização do homem, a obra de Véio faz suspeitar de uma poética historicamente mutilada, represada no interior de meninos e de um país.

Véio—A imaginação da madeira

Abertura: hoje (14), às 20h. Visitação: até 13/5, de terça a sexta, das 9h às 20h, e aos finais de semana e feriados, das 11h às 20h. Grátis.

Itaú Cultural: Avenida Paulista, 149 —Bela Vista?—?São Paulo.

Fonte: https://medium.com/revista-bravo/colecionador-de-si-ee040a475e49




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