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17/10/2015 | Revista E Online - Sesc SP - Desdobramentos do Véio

No Sesc Santo Amaro, mostra do sergipano Cícero Alves dos Santos reúne obras entalhadas a partir da imaginação do artista

A exposição do artista sergipano Cícero Alves dos Santos, o Véio, reúne 28 obras divididas em Tronco aberto, que surge das formas naturais, e Tronco fechado, entalhadas a partir da imaginação do artista. A mostra - com curadoria de Germana Monte-Mór - acontece no Espaço das Artes, do Sesc Santo Amaro, até o dia 13/12. O evento faz parte do projeto Desdobramentos – Acervo em Expansão, que procura enriquecer a relação entre artista e público.

Cícero nasceu na pacata cidade de Nossa Senhora da Glória, em Sergipe. O nome de batismo foi uma homenagem de seus pais ao padroeiro das florestas, o cearense Padre Cícero. Quando criança passava as tardes ouvindo histórias do folclore contadas pelos anciãos, a contragosto de seus pais. A fascinação pela sabedoria e pelos relatos dos mais velhos rendeu ao artista, aos cinco anos, o apelido de Véio. “As narrativas do folclore, da Caipora, do Lobisomem me encantavam”, relembra.

Dos seis irmãos, Véio foi o único que enveredou pelos caminhos da arte. “Meus pais não aceitavam que eu brincasse de boneca, que era como eles viam a minha arte, na época. Por isso, escondia minhas obras em um baú”, conta. A cera de abelha foi a primeira matéria-prima com a qual o artista teve contato. A massa de modelar sertaneja tomava forma de animais em suas mãos.

A argila também foi transformada pelas mãos habilidosas do artesão. Mas, foi ao esculpir troncos, ou melhor, dar vida à madeira, que Alves dos Santos se encontrou como artista. “Quando vejo um galho já imagino o que vou fazer. Não tenho dificuldade nenhuma em criar. Às vezes, viajo e até faço esboços, tenho uma caderneta com mais de 200 desenhos, mas nunca usei nenhum. Procuro preservar as curvas da árvore, é a minha forma de me comunicar e enxergá-la. Algumas obras são feitas em um dia, às vezes faço mais de uma, tudo depende da inspiração”, explica.

As cores são usadas para dar destaque aos objetos. “Nosso mundo é colorido. Por isso, uso diferentes tonalidades para transmitir a mensagem que a obra pretende passar”, pontua. A simplicidade e o talento de seus trabalhos ultrapassaram os limites de Sergipe. O artista teve peças expostas no Pavilhão das Culturas Brasileiras, Pinacoteca do Estado de São Paulo, e também na 56ª Bienal de Veneza, na Itália, onde exibiu mais de 100 de suas criações na Abadia de São Gregório, dentro da série de eventos mundiais Becoming Marni, além da apresentação de suas criações na Fondation Cartier Pour Lárt Contemporain, em Paris. Ainda assim, sua primeira exposição é um importante marco em sua história. “Surgiu um curso de alfabetização na região, fui convidado, em 1972, para apresentar minhas obras na Praça da Cidade. Quando meus trabalhos passaram a ser expostos em diferentes lugares, houve uma aceitação maior”, comemora.

Legado

Para Cícero existem dois tipos de artistas: os que fazem arte e os que vivem dela. “Tudo o que você fizer e gerar renda atrairá as pessoas. Na minha região, como ninguém vê o retorno financeiro dos meus trabalhos, isso não aconteceu. Mas, no memorial de Sergipe tem peças minhas, no Museu da Gente Sergipana também. Assim como no Museu do Folclore no Rio de Janeiro e em outros lugares. Essa é minha contribuição para a arte e para a cultura” ressalta.

O vento, o medo e a alegria são fontes de inspiração para o artista. “Faço meu trabalho por prazer, trabalho e vivo com simplicidade e acho que a arte tem que ser simples e acessível para que todos a vivenciem. Crio meu trabalho dependendo da situação, das circunstâncias. Apenas sinto e crio”. Mesmo vivendo em um mundo supersticioso, Véio se diz cético. “Não acredito em crendices, mas se tivesse alguma dor, não me importaria em fazer uso da fé do povo sertanejo”, responde aos risos.

O artista reside em um sítio, na mesma cidade em que nasceu, onde mantém o Museu do Sertão, com objetos, utensílios e documentos de sua cidade, a fim de conservar a memória do local. “A lenda do lobisomem ainda é viva no sertão. A superstição é uma característica marcante nessa região. Essas histórias me encantam! As brincadeiras, as festas, a vida, os namoros, os pedidos de casamento do sertanejo são diferentes. Eu ainda preservo esse passado, continuo a conversar com os anciãos e mantenho um acervo de dez mil peças deixadas por eles”, finaliza.




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