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14/07/2015 | O sertão vai virar mar - No seu aniversário de 20 anos, a MARNI celebra o trabalho poético do sergipano Véio na Bienal de Veneza.

O sertão vai virar mar

No seu aniversário de 20 anos, a MARNI celebra o trabalho poético do sergipano Véio na Bienal de Veneza.
Por Isabel Junqueira

Em 2012, quando a estilista Consuelo Castiglioni e sua filha Carolina viram algumas esculturas do sergipano Véio na mostra sobre arte popular da Fondation Cartier, em Paris, ficaram boquiabertas. A obra lúdica do autodidata seguia a mesma linha do estilo da Marni, grife fundada por Consuelo 20 anos atrás.
A improvável conexão com o artista brasileiro de 68 anos marcou tanto a dupla que a estilista decidiu incluir o trabalho do sergipano no rol das comemorações do 20º aniversario da Marni.
“Não queríamos celebrar de maneira tradicional, com uma retrospectiva da grife, por exemplo. Decidimos, então, organizar uma mostra sobre Véio porque nos sentimos conectadas com a poesia e espontaneidade do seu trabalho, que é naif e sofisticado ao mesmo tempo”, contou à Vogue Carolina, diretora de projetos especiais da marca milanesa.
O convite faria brilhar os olhos de qualquer artista contemporâneo: expor durante a bienal de Veneza, evento mais importante do mundo da arte. Mas Véio não se deslumbrou com a proposta. “Não tenho interesse, não. É muita preocupação!” justificou por telefone para a equipe da marca. Depois de muita insistência, pediu para negociarem com a galeria Estação, em São Paulo, que vende suas esculturas. Assim que Véio deu o sinal verde, Carolina e o curador Stefano Rabolli Pansera se deslocaram até Nossa Senhora da Glória, cidade a 115 quilômetros de Aracaju, onde o artista nasceu e vive até hoje, para selecionar uma centena de peças dentre as mais de 10 mil que fazem parte de seu impressionante acervo.
Logo na entrada da cidade, árvore mortas com intervenções pontuais de Véio chamaram atenção da dupla. “Pedimos para ele recriar essa imagem forte e poética no pátio da Abadia de San Gregorio, local da mostra veneziana, já que é assim que ele acolhe seus convidados em sua cidade natal”, explicou Carolina. Um miniateliê parecido com o do sertanejo e esculturas variadas, posicionadas sobre as muretas como que para quebrar o gelo da arquitetura medieval do local, também enchem os olhos dos visitantes logo na entrada.
Os personagens são semianimais e semi-humanos, “todos únicos”, gaba-se Véio. Difícil de repetir o modelo quando a matéria-prima são pedaços de galhos mortos, objets trouvés de sua região, que “pedem para ser recuperados”. O sergipano empenha-se em achar a disposição certa, pintar e entalhar a madeira para reforçar uma forma. “Eu dou uma segunda vida a algo morto que pertencia à terra e trago para a galeria”, explicou.
No dia do vernissage, em maio passado, Véio – que ganhou o apelido aos 5 anos, porque gostava de escutar conversas e histórias de gente idosa – me contou que criava os personagens ainda na infância com cera de abelha. Quando alguém se aproximava de suas criaturas, desmanchava-as rapidamente. Pegavam no pé dele, porque achavam que estava brincando de boneca, o que não era permitido de maneira alguma para um menino daquelas bandas. Somente na adolescência conseguiu assumir suas criações.
Vilma Eid, fundadora da galeria Estação, conta que observou o trabalho do sertanejo durante anos em feiras de arte popular para ter certeza de que o conjunto da obra tinha consistência para entrar no cubo branco que é uma galeria. “Mas ele não vende para qualquer pessoa nem se desfaz das peças da sua coleção particular por dinheiro nenhum do mundo!”, conta a marchand. Durante a estadia em Veneza, Vilma perguntou se Véio estava gostando da cidade. “Sou sertanejo, não gosto de toda essa água”, respondeu. “Além disso, não sei nadar!”
Abadia de San Gregorio:
Dorsoduro, 173 , Veneza.
Até 22 de novembro.




Galeria Estação
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