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15/05/2015 | Harper´s Bazaar Brasil - O QUE A MARNI E O ARTISTA BRASILEIRO VÉIO TÊM EM COMUM?

Obras do sergipano, expostas na Bienal de Veneza, fecham as comemorações de 20 anos da grife italiana
Por Sarah Kern

A grife italiana Marni encontrou no interior do sertão brasileiro um reflexo do seu espírito gráfico e multicolorido. São do artista sergipano Cícero Alves dos Santos, conhecido como Véio, as 100 obras da exposição Becoming Marni, que abriu dia 9 deste mês e fica disponível até 22 de novembro no mosteiro San Gregorio, em Veneza, como parte da 56a Bienal de Veneza. Este é o último evento – e o único artístico – da Marni Prisma, uma série de comemorações aos 20 anos da marca. A Marni gosta de explorar territórios fora da moda. Além de colaborações com artistas como Gary Hume e Claude Caillol, que estamparam coleções passadas, a marca colabora com frequência com arquitetos e designers de interiores. Fundadora e designer, Consuelo Castiglioni sempre diz que o lugar onde mais gosta de ver as clientes usando suas roupas é em exposições de arte – ao contrário de outras grifes, ela assumidamente não quer fazer roupas para o red carpet. Metade chilena, nascida na Suíça e baseada em Milão, ela leva seu espírito voyageur para cada coleção e se mantém atenta a representações artísticas dos quatro cantos do mundo. Ao se depararem com a obra de Véio, Consuelo e sua filha Carolina Castiglioni, diretora da marca, sentiram afinidade na hora. “Sabíamos que era a escolha certa”, diz Carolina. Marni e Véio vêm de dois mundos absolutamente opostos, mas utilizam a mesma linguagem estética. Bazaar investiga o que eles têm em comum:

Mix de cores vibrantes
A Marni ficou conhecida pela justaposição de cores e grafismos que, se vistos separadamente, poderiam parecer improváveis. Esse é um dos maiores talentos de Consuelo (ela já chegou a ser comparada a Miuccia Prada no quesito mix de cores e estampas). Na Marni, o perfume veranesco fica por conta da cartela primária que, assim como na obra de Véio, é neutralizada com frequência pelo branco, o preto e o marrom.

Intuição
Consuelo Castiglioni jamais frequentou escolas de moda. Desde 1994, quando fundou a Marni ao lado do marido, Gianni, e da filha, Carolina, ela cria as coleções sem croquis, mas tem ideias de sobra e gosta de experimentar proporções nos corpos das próprias modelos. Assim como ela, Véio é auto-didata (ele é representante da arte popular, em que artistas não recebem treinamento técnico em escolas de arte). Ambos confiam na própria memória para criar suas peças.

Natureza pop
Estampas de folhagens, florais ou étnicas são a cara da Marni. Adicione acessórios corpulentos em madeira ou de shape orgânico – aquelas maxi bijoux que a marca introduziu sem medo ao daywear – e a obsessão de Consuelo por tecidos tecnológicos, e voilà! A natureza com pegada pop é o seu fio condutor. Véio também joga com a dualidade: ele reutiliza galhos que recolhe à beiramar, mantém suas formas orgânicas, mas usa cores industriais quando os transforma em seres vivos imaginários.

Pé no chão
A graça da Marni – e o motivo pelo qual mulheres de todas as idades amam a marca – é ser ao mesmo tempo fun e madura. A mulher Marni é irreverente e divertida, mas também inteligente. Esse quê de sobriedade está presente em toda a obra de Véio. Ele transforma troncos em animais multicoloridos (que podem ter até um ar infantil ao primeiro olhar), mas que retratam com olhos austeros a vida no sertão.

O segredo está nas formas
Linhas orgânicas guiam todo o trabalho de Véio, seja nas peças menores, que ele esculpe, nas maiores, que mantém na forma original, ou nos traços das pinturas. Na Marni, assimetria, extremidades arredondadas e shapes excêntricos fazem as vezes da casa. Consuelo dá importância às formas criadas com espontaneidade, que denotam o toque humano da experimentação nas modelagens.
Em breve será lançado o documentário A Grande Terra do Sertão, filmado pelos artistas italianos Tellas e Roberto Cirez, que acompanharam o processo de criação de Véio.




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