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10/01/2012 | Revista Lindenberg | Ano 10 | número 40 | 2012 - A ARTE QUE VEM DO SERTÃO | VÉIO

A ARTE QUE VEM DO SERTÃO

Em uma região remote de Sergipe, Cícero Alves dos Santos, o Véio, cria escultura que serão expostas na Fundação Cartier, em Paris.
Por Marina Fuentes

Quem passar, de carro ou a pé, pelo quilômetro 8 da rodovia Engenheiro Jorge Neto,pode achar que está vendo coisas. Noivas, grávidas , seres imaginários e cortejos fúnebres de figuras com feições sisudas se apresentam, em tamanho real ou amplificado,como verdadeiros gigantes transitando por aquele espaço de roça, entre a cidade de Nossa Senhora da Glória e Feira Nova, que o artista Cícero Alves dos Santos, o Véio, cria e expõe a sua obra em madeira, dando sua versão para a história do povo sertanejo.
Imaginação ou realidade, é impossível ficar alheio às suas peças. A partir da madeira talhada ou de formas aproveitadas do movimento natural de troncos e galhos, Véio exterioriza as criaturas que povoam o seu imaginário. Para cada figura há uma história na ponta da língua. Há políticos com duas faces (“uma bem pintada, para os dias de comício, outra carcomida para os dias de poder”), índios preparados”para uma guerra que nunca vão vencer”, sertanejos enterrando um conterrâneo “que leva com ele uma mala de sabedoria”.
“Venho, converso com eles são uma família”, diz o artista, que produz novas peças semanalmente e trata de repor as que são deterioradas pelo tempo, além de manter outras guardadas em pequenas casas instaladas na beira da estrada. Apesar de prolífico, Véio confessa as dificuldades de manter a atividade em meio à seca cultural do sertão. “ Já me chamaram de maluco, de macumbeiro,muita gente não entende”, conta ele, que em 1980 recebeu o primeiro convite para expor, numa feira pecuarista. Foi o começo do reconhecimento que, no boca a boca, atravessou as fronteiras estaduais e chegou a São Paulo e a Vilma Eid, fundadora da Galeria Estação,especializada em arte popular.
“ Muita gente já tinha me falado do Véio e resolvi ficar atenta ao seu trabalho. Antes de conhecê-lo, decidi ir comprando peças de sua obra. Passei cinco anos colecionando e avaliando, se aquilo tinha uma consistência, mas a obra de arte resiste”, diz ela, que sabe como poucos diferenciar a arte de artistas populares, sem formação erudita, do artesanato. “ Artesanato é a repetição de uma fórmula bem-sucedida, em geral é um utilitário e é feito pra ser consumido. Os artesões repetem em série porque o mercado pede aquilo em série. Mas o artista não consegue reproduzir a mesma obra, mesmo se pedir.”
ARTISTA “DE NASCIMENTO”
Além de se dedicar às esculturas em madeira, Véio criou e mantém um museu sertanejo. São mais de cinco mil objetos garimpados por ele ao longo de décadas que retratam os hábitos cotidianos do povo da região e que estão distribuídas em casinhas temáticas. “ Tem a casa de farinha completa,a tenda de ferreiro, com todas as ferramentas, a casa do agricultor, do caçador. Aproximadamente dez casas, arrumadas cena por cena. Se a gente na reúne isso, tudo será esquecido. Isso não está registrado em lugar nenhum”, conta ele.
O interesse de Véio pelos costumes e histórias locais vêm da infância. Nascido em 1948, na cidade de Nossa Senhora da Glória, aos cinco anos o menino Cícero vivia entre os anciões ouvindo suas prosas. A afinidade era tanta que lhe rendeu o apelido – Véio - pelo qual hoje é conhecido no sertão e em galerias.
Já nessa época começou a fazer seus primeiros trabalhos manuais em cera de abelha, como uma criança que brinca de massa de modelar. Depois, pré-adolecente, conheceu a cerâmica, mas logo descartou a matéria-prima. “ Era uma sujeira, tinha que lavara mão para cumprimentar quem chegasse e meu pai queria que eu trabalhasse na roça”, lembra. Foi observado os trancos de árvores mortas que começou a imaginar seres e formas que poderiam ser criadas a partir dali. “ Meu trabalho começa da observação do que a natureza já fez”, explica.
A consciência do próprio trabalho artístico veio antes da confirmação de colecionadores e galeristas , quando Véio passou a defender sua obra e chamar a atenção para ela. “ Fui reconhecido fora daqui, mas na cidade mesmo nunca vendi uma só obra. Ninguém valoriza arte no sertão”, reclama ele, que, desconfiado, seleciona quem vai poder adquirir seu trabalho. “Se vem aqui falar que é bonitinho, se eu ver que não tem sensibilidade, que não entendeu, já digo que não tenho nada pra vender, como já fiz muitas vezes”.
RECONHECIMENTO
Em São Paulo,no entanto, Véio é um artista em ascensão. Dono de uma estética limpa e extremamente contemporânea – há quem compare seu trabalho com o do alemão Georg Baselitz - , desde 2004 integra o acervo da Galeria Estação, onde algumas de suas peças estão à venda por valores que giram entre R$ 8 mil e R$ 18 mil.
Obras suas também fazem parte do acervo da Pinacoteca do Estado, do Sesc e de coleções particulares, como a do artista plástico carioca Waltércio Caldas. “ Gosto especialmente do trabalho que ele faz em pequena escala. A temática somada àquele tamanho é muito interessante”, conta Waltércio, que se refere às minúsculas esculturas de madeira de 3 a 5 centímetros que Véio faz com a ajuda de um canivete.
Algumas miniaturas e obras grandes selecionadas devem integrar uma mostra no Instituto Tomie Ohtake , que reúne dez artistas populares em março de 2012. A iniciativa em conjunto com o Instituto do Imaginário e a Tal TV, inclui, ainda, um livro e um documentário sobre essas pessoas extremamente criativas que despontam em locais com pouco ou nenhum incentivo à cultura.
Vilma explica a importância do encontro para entender a obra desses artistas. “ De um modo geral, eles estão muito isolados de uma realidade urbana, vivem no seu próprio hábitat. Mas a consciência que Véio tem de um ser político, de uma manutenção de tradições é fundamnetal para nossa história. É algo óbvio, mas é surpreendente como um ser semianalfabeto, morando numa beira de estrada, tem essa visão. Ninguém o ensinou, ele nasceu com isso.
Também em 2012, Véio dá seus primeiros passos no exterior, quando vai participar de uma coletiva prevista para maio que deve reunir o trabalho de artistas populares de diversos países na Fundação Cartier, em Paris.




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