Notícia

26/11/2013 | Folha de São Paulo | Ilustarada | Morre aos 85 anos o gravurista Gilvan Samico

Por
Silas Martí
de São Paulo

Morreu nesta segunda (25) no Recife, aos 85 anos, o artista plástico Gilvan Samico, vítima de um câncer na bexiga. Nos últimos meses, Samico, que vivia em Olinda, foi internado uma série de vezes no Real Hospital Português, na capital pernambucana, mas médicos diziam que seu câncer era incurável.
Seu corpo seria cremado ontem à noite no cemitério Morada da Paz, em Paulista, nos arredores do Recife.
Um dos maiores nomes da gravura nacional, Samico foi aluno de mestres como Lívio Abramo, com quem estudou na Escola de Artesanato do Museu de Arte Moderna de São Paulo, e Oswaldo Goeldi, na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio.
Depois de uma temporada na Europa e de volta ao Recife, Samico se aproximou do escritor Ariano Suassuna e se tornou um dos maiores nomes de seu movimento Armorial, que juntava ícones da cultura popular nordestina à literatura de cordel.
Samico se firmou no terreno da xilogravura criando alegorias de linhas fortes e de alto contraste ancoradas quase sempre em mitos e lendas da cultura popular nordestina. Embora no início da carreira tenha se influenciado pelo realismo social de Abelardo da Hora, sua produção depois se tornou mais depurada e precisa.
"Ele era o maior xilogravador vivo no país", diz Vilma Eid, dona da Galeria Estação, que representa a obra do artista em São Paulo. "Eu diria que ele deixa uma obra fundamental para a compreensão da arte brasileira, porque é um artista que foi buscar na raiz do povo a matéria para seu trabalho."
Suas obras mais recentes, expostas na Estação no ano passado, são uma espécie de terceira via entre o movimento Armorial e a escuridão que observava na obra de Goeldi, mesclando enredos que "vêm de dentro", nas palavras dele, e amortecendo a estridência tropical de Olinda em composições mais fechadas, com ícones e estruturas talhadas com minúcia na madeira.
"Comecei a tentar conter a imagem toda dentro do espaço, que ela ficasse toda ali", disse Samico em sua última entrevista à Folha, em junho do ano passado. "Então a fusão da minha produção branca com outra mais negra levou a esse resultado que sigo."
Num livro lançado também no ano passado, por ocasião de sua última mostra paulistana, Ariano Suassuna escreveu sobre "tino" de Samico "para distinguir as vozes legítimas de sua família espiritual" e sobre como ele abriu "veredas no terreno áspero e tirano da beleza".


Por
FABIO CYPRIANO
CRÍTICO DA FOLHA

Análise: Herdeiro de expressionistas, Gilvan Samico se sobressaiu com obra colorida

Gilvan Samico foi um dos principais gravuristas brasileiros. Com dragões, serpentes, leões e personagens folclóricos, advindos de narrativas míticas, Samico construiu uma obra única, marcada por conjugar as culturas erudita e popular.
Essa marca teve início em 1963, quando realizou a gravura "O Boi Feiticeiro e o Cavalo Misterioso", criada a partir da observação dos folhetos de literatura de cordel.
"Eu já conhecia gravadores populares e não queria imitá-los. Li os folhetos e vi que, no texto sim, havia inspiração, em como eles extrapolam o mundo real, foram as narrativas que me interessaram", disse Samico à Folha, em Olinda, onde vivia, pouco antes de realizar sua maior retrospectiva em São Paulo, na Pinacoteca do Estado, em 2004.
Contudo, além dos textos imaginativos, Samico ainda apropriou-se do grafismo usado pelos gravadores populares.
"Observei as capas dos folhetos de cordel, com estruturas rígidas, e abstraí as imagens me utilizando das organizações gráficas", afirmou, ainda, o artista na mesma entrevista.
"Suzana" (1966) é a obra que marca essa mudança.
Samico pode ser considerado descendente direto de Lívio Abramo (1903-1992) e Oswaldo Goeldi (1895-1961), os dois gravuristas brasileiros mais influentes da primeira metade do século 20, já que estudou com ambos.
Contudo, ao contrário das marcas soturnas, herança do expressionismo alemão em Abramo e Goeldi, Samico sobressaiu-se ao criar uma obra colorida, de grandes dimensões e marcada por expressar histórias baseadas em temáticas populares, não só brasileiras, como "A Caça", de 2004.
Nela, ele inspirou-se em uma lenda contada pelo ensaísta uruguaio Eduardo Galeano, em "Memória do Fogo", sobre a história de um esquimó.
Desde a década de 1970, Samico passou a criar apenas uma gravura por ano, o que se vê pela intensa dedicação e refinado acabamento de cada uma delas.




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