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26/05/2013 | O GÊNIO E O LOUCO | Jornal A TARDE Salvador - BA

ARTE E SAÚDE - Aos 70 anos, o elogiado artista plástico baiano vive o drama do alcoolismo e sem tratar o seu distúrbio psiquiátrico.

"Nem o Renato Russo anda de carro", diz Aurelino dos Santos, ar messiânico, olhos arregalados, fala enfática.
As palavras sobre o vocalista morto da Legião Urbana compõe uma das inúmeras frases desconexas do genial artista plástico baiano com distúrbio psiquiátrico.
Aos 70 anos, alcoólatra e magérrimo, o autodidata e analfabeto que já teve quadros expostos na Espanha e na França vive cada vez mais em condições precárias em seu barraco sem reboco, de 35 metros quadrados, numa favelinha encravada bem perto da rola de Ondina.
"Mario Cravo é sombra viva", emenda ele, cabeça firme em seu universo paralelo, citando um peso-pesado da arte da Bahia.
Em seus momentos de aparente conexão com a realidade, há o risco da imprecisão.
"Eu gosto de beber (cerveja). Bebo só duas (latas) por dia", assegurou Aurelino a ser questionado por A TARDE se era o responsável pelas latas vazias espalhadas pelo chão da sala.
" Na verdade, ele bebe mais. Se deixar, vai o dia inteiro. É cerveja, vinho, batida (de cachaça)...', sustenta a sobrinha Sara dos Santos, 41, que divide com o tio o mambembe casebre sem forro e com telhas de amianto.
O álcool não é o único vício de Aurelino. Fumante compulsivo, consome quase dois maços de cigarros por dia.
Para piorar, alimenta-se mal, o que a fisionomia esquelética apenas confirma. Passa longe de frutas, legumes e verduras. Prefere enlatados e embutidos.
"A única coisa boa é que, pelo menos, ele toma muito leite', minimiza a sobrinha.
Apesar do visível estado de abandono do tio idoso com transtorno mental, Sara afirma que nada pode fazer:
" Ele é cabeça dura, não gosta de hospital".
Não há uma informação precisa sobre o tipo de distúrbio psiquiátrico de Aurelino, já que ele nunca teria se submetido aos cuidados de um médico especialista.
" O primeiro passo é uma avaliação. É preciso conhecer o paciente e sua vida pregressa para saber o grau do problema. A partir daí é que se chega ao tratamento indicado. Pode ser caso para tratamento em nível ambulatorial ou internação", explicou a psiquiatra Fabiana Nery, em entrevista ao A TARDE.
A falta de tratamento médico e o alcoolismo, segundo ela, são agravantes.
" Uma pessoa com transtorno mental que passa anos sem tratamento ou que nunca se tratou pode ter uma resposta reduzida aos remédios'. E completa:" O uso do álcool complica bastante o quadro, pois piora a maioria dos sintomas psiquiátricos'.

INTERDIÇÃO?

A pequena sala sem mobília nem TV é o palco de um artista que já teve dias mais produtivos e inspirados.
Se antes Aurelino chegava a pintar três ou mais telas no mês, hoje precisa do mesmo prazo para fazer só uma.
"Por causa da bebida, está pintando menos a cada dia', relata a sobrinha Sara.
" Aurelino anda sumido daqui. Geralmente, quando isso acontece, é porque está bebendo. Ele sabe que a gente não gosta de bebida por aqui",corrobora Veranice Gornik, proprietária da Prova Do Artista, uma das galerias de artes de Salvador que revende as obras do artista - outras galerias badaladas, como a de Paulo Darzé, no Corredor da Vitória, e a de Roberto Alban, em Ondina, Também comercializam seus trabalhos.
Veranice Gornik conta que já tentou ajudar Aurelino."Mas ele não vai ao médico. Não tem jeito".
Veranice entende que apenas uma medida radical seria a solução: interdição.
" Como pessoa física não posso interditá-lo, só a família. É um caso para o Estado, porque só uma interdição para ele ser internado, alimentar-se melhor e tratar-se do alcoolismo", sugere.
A sobrinha Sara e os demais parentes próximos não pretendem tomar uma iniciativa.
Uma interdição, portanto.seria possível apenas por meio de uma denúncia de terceiros ao Ministério Público.
"Seria preciso um laudo médico sobre a saúde física e a sanidade mental dele, comprovando a sua incapacidade de gerir a própria vida", explicou ao A TARDE a advogada Priscila Pinto, especialista em Direto Civil.
Segundo ela, um Juiz de Família poderia acolher um curador como responsável pelo curatelado - no caso, Aurelino.

VAN GOGH E GARRINCHA

Por outro lado. há quem reprove a hipótese de ser interditar Aurelino - como Emanoel Araujo, diretor-curador do Museu Afro Brasil (SP).
Emanoel entende que cada um tem a sua fatalidade e cita como exemplo a trajetória do craque de futebol Garrincha (1933-1983), alcoólatra após o fim da carreira;do compositor e sambista Geraldo Pereira (1918-1955) , um boêmio;e do pintor holandês Van Gogh (1853-1890), que sucumbiu à loucura e se matou:
" Aurelino vai pagar pelo seu poder de consciência ou inconsciência. O problema é esse, não tem jeito. O que importa é o artista e como a gente decodifica as obras dele".
Mas, será que Aurelino perderia o poder de criação artística se passasse por tratamento psiquiátrico?
" Sua pintura não deixa transparecer a desorganização da patologia que o acompanha. Seu talento artístico a transcende e a obra de arte surge onde a loucura não domina. ", escreveu a psicanalista Urânia Tourinho Peres no catálogo que marcou a exposição da Aurelino dos Santos no Museu Afro Brasil (SP).

QUADROS DO ARTISTA JÁ FORAM EXPOSTOS EM VALENÇA E PARIS.

Cobrador de ônibus na juventude,Aurelino iniciou a carreira de artista plástico em 1963,influenciado pelo escultor baiano Agnaldo Santos (1926-1962) e incentivado pela arquiteta Lina Bo Bardi.
A geometrização e as corres fortes marcam seus quadros, tidos como arte primitiva.
"É um artista único. Seu trabalho é diferente do de outros primitivistas.O que para ele é figurativo, para o publico é abstrato", diz o crítico de arte baiano Justino Marinho.
Se as andanças de Aurelino raramente extrapolam os arredores de Ondina, sua arte não tem limites. Há quadros dele no Museu afro Brasil, em São Paulo, e suas telas já integraram exposições em Valencia e Paris - onde a Fundação Cartier usou uma frase do poeta Fernando Pessoa para apresentá-lo: " O mito é o nada que é tudo".

Marcelo Machado




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