Exposições na Galeria

João Francisco da Silva | esculturas | de 20/05/2014 a 09/08/2014

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Apresentação

João Francisco

Alagoas é um celeiro maravilhoso, cheio de ótimos artistas, principalmente escultores que trabalham com madeira. João Francisco, mais conhecido como João da Lagoa, nasceu na cidade de Girau de Ponciano. Morou toda a sua vida na zona rural do município vizinho de Lagoa da Canoa, coincidentemente, a mesma cidade de outro escultor incrível, Antônio de Dedé, que expusemos no final de 2013.

Fui apresentada ao trabalho de João Francisco pelos meus amigos locais, Maria Amélia, Dalton e Jerônimo. Fui comprando, comprando, acumulando e me encantando. Preparava-me para ir finalmente conhecê-lo para marcar a exposição quando chegou a noticia do seu falecimento, aos 69 anos, em 2009. Esperei demais.

Fiquei triste, chateada mesmo, e até com certo sentimento de culpa. Ele estava pronto, sua obra ali me dizia isso o tempo todo, mas as circunstâncias... Cheguei a incluir alguns de seus trabalhos em uma exposição coletiva que fizemos dedicada a crianças de 3 a 80 anos, chamada Artistas e arteiros, com muito sucesso. Mas isso foi pouco perto do que ele merecia.

Apesar da ausência de João Francisco entre nós, chegou a hora de mostrar o fruto do seu talento. Para a curadoria, convidamos o poeta João Bandeira, que imediatamente entendeu a poética do escultor e aceitou o convite.

Mea culpa por ele não estar aqui para desfrutar sua exposição, realizada com os mesmos critérios de cuidado e dignidade que nos norteiam nestes dez anos da Galeria Estação. Então, desfrutemos  nós. Essa é a homenagem que posso, tardiamente, prestar-lhe.

Vilma Eid

 

 

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Curador

JOÃO FRANCISCO DA SILVA – A PINO


João Bandeira


Todos os dias nascem deuses / Alguns maiores e outros menores do que você // Todos os dias nascem deuses / Alguns melhores e outros piores do que você // Esse é o alvorecer de tudo que se quer ver / Sem fazer sombra na melhor hora do sol / Eternidade duradoura com sossego então /Melhor que fique assim.


                                                                                                                                      Nação Zumbi1


Contam que João Francisco da Silva era um homem circunspecto, de poucas palavras e seriedade no trabalho. Morando na pequena cidade de Lagoa da Canoa, na região do agreste de Alagoas, diz-se igualmente que gastou boa parte da vida na roça, sobretudo na chamada agricultura de subsistência. Vida modesta, em casas de porta e janela, a certa altura dedicada também a produzir esculturas, num ambiente em que a população tem estado envolvida, desde pelo menos o século XIX, em grandes ciclos econômicos de agricultura extensiva.


O que pude ver da produção de João da Lagoa, como também ficou conhecido, faz pensar num mesmo e característico povo de madeira – abrangendo homens, mulheres, santos, santas, sereias e mais alguns bichos. Não destoam muito os que, em princípio, seriam especiais e os que não. O coração crivado de estiletes identifica Nossa Senhora das Dores, e a sanfona, o seu tocador. De resto, são sensivelmente parecidos. Com uma ou outra exceção, os integrantes desse povo poderiam ser sumariamente divididos entre os esguios e os atarracados. Mas, olhando melhor, mesmo nesse último grupo é a verticalidade que tende a se destacar. Sob o signo da contenção, nada se expande muito para os lados; nem para a frente, nem para trás.


Em várias peças, por exemplo, os braços são feitos rentes ao corpo, e às vezes apenas esboçados em baixo-relevo. Até os braços abertos de um São Francisco têm proporções que não chegam a compensar o efeito no espaço produzido pela tora central, onde somam-se base, batina, cabeça e coroa. As feições meio neutras do santo são um traço recorrente nas demais peças, nas quais também não sobressaem outras partes do corpo, bem como as vestimentas (quando há), os objetos e adereços que as figuras carregam. Ou, quando isso ocorre um pouco mais, não é raro que os detalhes estejam como que incrustados na massa principal – além dos braços, as mãos, um coração, um pandeiro, uma espingarda, um livro, um terço. A verticalidade, o pouco detalhamento e a simetria predominantes aliam-se ao acabamento muito liso e esmerado dado à madeira sem pintura, de maneira que a definição da silhueta fica realçada em cada peça, emprestando à maioria delas um aspecto compacto, quase de totem, inclusive em algumas bem pequenas.         


O efeito de solidez não perde força naquelas peças em que há mais de uma figura esculpida ao mesmo tempo, com simbolismos diversos. O que vai desde fiéis protegidos sob um santo ou padre até acoplamentos um pouco enigmáticos – ao menos para olhos da cidade grande – e que, por isso mesmo, parecem ainda mais reclamar interpretação. É o que acontece em duas esculturas semelhantes, nas quais da cabeça de um homem sai talvez um “pensamento”: numa delas, como um galho em que um pássaro está pousado (ideias benfazejas?); na outra, assumindo a forma de uma rês (embora nesse âmbito cultural boi e diabo não costumem vir associados, poderia ser o demo, em oposição à outra peça?); e vale reparar que esse segundo personagem leva consigo um telefone celular (seria o especulador de gado, devidamente equipado?). Ou naquela peça em que, sobre a mesma base, estão eretos e lado a lado uma figura masculina quase secretamente envolvida por dois pares de braços que não são os seus e um outro ser meio lagarto ou cobra, meio gente, mas que lembra bastante também um falo (pensando bem, não parece enigma tão grande). Aliás, há outras figuras masculinas ou femininas onde o sexo não se esconde, ainda que sem abandonar o comedimento.


Existe aqui, portanto, uma relativa variedade de soluções dentro de um mesmo repertório, com significativo equilíbrio formal. Seria equivocado concluir que a sobriedade geral do entalhe se devesse a alguma limitação técnica do artífice. É mais certo supor uma opção clara no modo de fazer, que demonstra pouco interesse nos modelos por demais imitativos do que se vê e em sua riqueza de pormenores, ao contrário do que é razoavelmente comum nessa esfera de produção. Quando quer, João Francisco é perfeitamente capaz de detalhar um objeto, como o celular mencionado. Pensando então num tipo específico, e mais raro, de “imaginador” – belo termo às vezes usado para designar santeiros do Nordeste do Brasil –, estamos diante de um daqueles talentos em que a parcimônia procura dar conta do tanto que move a expressão, em que “por excesso do objeto e não por falta do sujeito, ao artista só resta significar”.2


Talvez justamente para abarcar o que é preciso, nessa arte não há muita distância entre sagrado e profano, fantasia e dia a dia. No fim das contas, apenas as menores distinções têm verdadeira relevância. Afora isso, santos, sereias e gentes colocam-se mais ou menos em pé de igualdade, assemelhando-se na aparência e no porte. Para João Francisco (que gostava de trabalhar ao ar livre), estão todos aí numa espécie de privação compartilhada, sob as mesmas condições, sob o sol, a pino.   


 


NOTAS


1 Trechos da letra de “No Olimpo”, música do CD Fome de Tudo (Deckdisc, 2007), da Nação Zumbi. A autoria é de Jorge du Peixe, Dengue, Pupillo, Toca Ogan, Gilmar Bola 8 e Lúcio Maia.


Imito aqui, à minha maneira, Roberta Saraiva, curadora da exposição de Antonio de Dedé, escultor da mesma cidade de João Francisco da Silva, também na Galeria Estação, e que sugeriu uma trilha sonora para aquela mostra: “Lagoa da Canoa”, de Hermeto Pascoal, outro conterrâneo.


Aproveito para agradecer a colaboração de uma série de pessoas. Além de Vilma Eid e Germana Monte-Mor, pela interlocução, e de Giselli Gumiero e a equipe da galeria, que deram o suporte necessário à realização da exposição atual, agradeço também à mesma Roberta e a Maria Amélia Vieira, pelas informações sobre o contexto de produção de João Francisco; a Ana Carolina Roman Rodrigues, pela assistência na pesquisa; a Ana Cândida de Avelar e a Noemi Jaffe, pelas conversas sobre a montagem.


2 A citação é de Lévi-Strauss, ao comentar, em outro contexto, certas soluções formais da dita “arte primitiva”, dando ao termo significar o sentido de uma codificação formal específica em que o naturalismo seria insuficiente. V. Olhar, Escutar, Ler. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

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Release

JOÃO FRANCISCO DA SILVA | esculturas


 NA GALERIA ESTAÇÃO Abertura: 20 de maio, às 19h - Até 09 de agosto de 2014


Dando continuidade às comemorações dos dez anos da Galeria Estação, Vilma Eid convidou o poeta João Bandeira para assinar a curadoria da individual do artista alagoano João Francisco da Silva (Girau do Ponciano, AL 1940 – Lagoa da Canoa, AL 2009). Com 45 esculturas, a exposição apresenta a obra de João da Lagoa, como também era conhecido, que remete aos personagens da vida cotidiana do artista no agreste alagoano, onde vivia de forma modesta e trabalho na roça, sobretudo na agricultura de subsistência.


Suas esculturas verticais representam um “povo de madeira”, com homens, mulheres, santos, sereias e bichos, nas quais pequenos e eventuais detalhes diferenciam uma figura especial de outra ordinária. “A verticalidade, o pouco detalhamento e a simetria predominantes aliam-se ao acabamento muito liso e esmerado dado à madeira sem pintura, de modo que a definição da silhueta fica realçada em cada peça, emprestando à maioria delas um aspecto compacto, quase de totem, inclusive em algumas bem pequenas”, aponta o curador.


A dramaticidade e expressividade do entalhe estão presentes em cada peça. Figuras longilíneas com braços rentes ao corpo ou até mesmo esboçados em baixo relevo e feições neutras em que, raramente, se vê sobressair outra parte do corpo. Detalhe ou vestimenta ressaltam o efeito de solidez recorrente no trabalho do artista, mesmo em se tratando de peças com mais de uma figura ou com simbolismos diversos. João Bandeira explica que seria equivocado concluir que a sobriedade geral do entalhe se devesse a alguma limitação técnica do artífice. “É mais certo supor uma opção clara no modo de fazer, que demonstra pouco interesse nos modelos por demais imitativos do que se vê e em sua riqueza de pormenores, ao contrário do que é razoavelmente comum nessa esfera de produção”, completa.


Para o curador, ainda, na obra de João da Lagoa não há muita distância entre sagrado e profano, fantasia e dia a dia. “No fim das contas, apenas as menores distinções têm verdadeira relevância e, afora isso, santos, sereias e gentes colocam-se mais ou menos em pé de igualdade, assemelhando-se na aparência e no porte”.


João Francisco da Silva (Girau do Ponciano, AL 1940 – Lagoa da Canoa, AL 2009)


João Francisco da Silva, o João da Lagoa, passou sua vida na zona rural do município de Lagoa da Canoa, até a sua morte em junho de 2009, aos 69 anos. Filho de agricultores, sempre trabalhou na roça e começou a esculpir de “brincadeira”, como forma de passar o tempo. Transformou-se no principal escultor da região onde morava, trabalhando a madeira de forma longilínea, com um fazer simples e contemporâneo, embora carregasse a marca do artista de impulso, espontâneo, autodidata. Católico, sua obra teve como principal referência os santos mais populares, porém sem o rebuscamento dos santeiros tradicionais. João da Lagoa deixou uma importante obra que pode ser encontrada em importantes coleções particulares de Arte Popular e em museus no Brasil, Portugal e França.


Serviço:


João Francisco da Silva  - Esculturas


Abertura: 20 de maio, às 19h (convidados)


Até 09 de agosto de 2014, de segunda a sexta, das 11h às 19h, sábados das 11h às 15h - entrada franca.


 


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