Exposições na Galeria

Antonio de Dedé | esculturas | de 12/09/2013 a 31/10/2013

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Apresentação

Antonio de Dedé 

Primeiro conheci a obra, e finalmente, há pouco tempo, o artista.

Foi com a Maria Amélia e o Dalton que pela primeira vez vi os trabalhos do Dedé. Acompanhei-o, como geralmente faço, durante alguns anos e constatei o talento desse homem humilde que transforma troncos em seres fantasiosos e muito espirituosos. Morando no sertão alagoano (Lagoa das Canoas), ele cria Sereias, um dos seus personagens favoritos, São Franciscos, São Jorges, Homens-Pássaro e uma infinidade de figuras do seu rico imaginário.

Em 2012, com a participação no projeto Teimosia da imaginação – livro, documentário e exposição no Instituto Tomie Ohtake –, Antonio de Dedé tornou-se conhecido no Sul do país. Coincidentemente, no mesmo ano seu trabalho foi selecionado para participar da exposição Histoire de voire na Fondation Cartier, em Paris, estando documentado no catálogo da mostra. Além da participação, as obras foram adquiridas e hoje fazem parte do acervo daquela prestigiosa instituição.

Quase inacreditável, não é mesmo? É o talento reconhecido. Antonio de Dedé no lugar certo e na hora certa.

No início de julho de 2013 finalmente fui conhecê-lo. Viajamos até lá a Germana Monte-Mór, sua máquina fotográfica pronta para registrar os acontecimentos da nossa visita, e a Roberta Saraiva Coutinho, convidada para ser a curadora desta exposição.

Fiquei comovida com a humildade do Dedé. Vivendo na mais absoluta pobreza, rodeado pelos cinco filhos e pelos netos, demonstra uma inabalável alegria de viver. Falante, sorriso permanente nos lábios, comove-se ao falar da esposa que se foi deixando-o sozinho com a criação dos filhos. Mas ele deu conta. A família vive em uma união impressionante. Um dos filhos veio trabalhar em Ribeirão Preto, cidade no interior de São Paulo, mas não aguentou ficar longe da família. Voltou em poucos meses. Disse que lá o aluguel era muito caro e que não viu por que ficar afastado. Vivem assim. Todos juntos e trabalhando.

Convidei Dedé para vir para a abertura da exposição na galeria. Convidei um dos filhos para acompanhá-lo. Mas não teve jeito. Ele deu várias desculpas, mas, principalmente, dizia que os meninos dão muito trabalho e que não pode deixá-los sozinhos. Os “meninos” em questão já têm quase trinta anos... É mesmo medo de avião.

Enfim, aí está o trabalho do Dedé. Cheio de cor, humor e fantasia, assim como é o nosso artista.

Espero que vocês gostem tanto quanto eu.

Vilma Eid

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Curador

Antonio de Dedé 


Antonio de Dedé – Antônio Alves dos Santos, filho de Dedé Lourenço, 59 anos, viúvo, pai de cinco filhos, vive em Lagoa da Canoa, vizinha a Arapiraca, terra do fumo,região rica do agreste alagoano, a uns quarenta quilômetros do rio São Francisco e outros 150 da capital.


Sujeito de sorriso generoso, ele se apresenta à porta e convida para entrar. No interior da casa escura, um São Sebastião branquinho, comprido, de seus dois metros de altura, chama a atenção. Parece fora de lugar. É o anúncio de que a fusão entre cotidiano e imaginário é a chave para a compreensão de um artista que vai misturando filho, bicho, lenda, devoção e natureza. No fundo do quintal de terra batida, uma parte coberta de telha protege os troncos da madeira à mostra. Em cima do telhado, um cachorro com hábitos de gato contempla uma boa dúzia de cataventos que não param de girar.


Seu Antonio não sai de casa, não deixa os filhos e não houve jeito de convencê-lo a vir à abertura da exposição. Até agora imagino que impressão lhe causariam suas peças coloridas reunidas numa galeria branquinha, em São Paulo.


As primeiras peças de Antonio de Dedé foram feitas pra brincar: carrinho, aviãozinho, peão. Mas foi com uns doze, treze anos, quando começou a trabalhar numa olaria, que passou a usar o barro e “queimar os bonequinhos junto das telhas”. Foi de onde saíram patinhos, bonecos e cavalinhos, modelados, queimados e pintados. Foi o início de tudo: “No meu trabalho, eu tava descobrindo o ouro”.


Mas o mundo foi mudando, a olaria foi aos poucos se extinguindo e com a escassez do barro o artista passou à madeira, caminho comum a outros artistas populares que começaram com a modelagem e migraram para o entalhe. Primeiro foram peças em tamanho diminuto, ainda com cara de brinquedo, como o Cavalinho de orelhas de couro, a Bailarina com olhos de plástico e o Papagaio de asas cor-de-rosa. Mas é nas figuras do Touro e do Tigre, ambos longilíneos, de membros reduzidos, que se anuncia a proporção inventada – comprida, esticada – dos trabalhos futuros do artista.


Só mais tarde as peças ganharam corpo e tamanho e se estabeleceram numa verticalidade de proporções curiosas, de expressão e colorido ricos, que fazem lembrar as carrancas que outrora se erguiam à proa dos barcos do rio São Francisco.


A madeira, em Lagoa da Canoa, já não existe. É preciso consegui-la fora, e o artista usa toras de madeira de todo tipo: jaqueira, eucalipto vermelho, sucupira, pau d’arco e maçaranduba. Madeira “fixe”, como ele diz, madeira dura, porque “não tem madeira dura, tem escultor mole”.[1] E o trabalho é duro mesmo, porque Seu Antonio leva tempo para acabar uma peça grande. A produção é pequena e cada peça é feita para durar. É como ele diz: “tem que tomar ‘coidado’ nesse trabalho, é uma responsabilidade”.


“Eu não posso correr na carreira, eu passo o dia nesse trabalho aqui, é o meu serviço, como um serviço pesado qualquer. Aqui eu pego o pau bruto – quando eu termino um pau desse, tá uma peça, um ‘personage’. Qualquer um ‘personage’ que eu invente fazer, quando eu termino, identifico ele. Aí, quando eu termino de fazer a peça, não tá o ‘mermo’ pau mais, a peça já tem uma transparência como qualquer outro ser vivo.”[2]


Dente, olho arregalado, unha pintada, sobrancelha, bigode, nariz: todos os detalhes estão bem marcados e cada personagem é colorido, simpático, em geral vertical, feito poste, totem, viga, de um jeito que as extremidades se comprimem, diminutas. O contraste se dá entre o corpo alongado e os pezinhos, os braços sem fim, as mãos que ora se encolhem, grudadas ao tronco, ora se projetam para fora da viga. Em outro extremo, quando a escala diminui, os membros voltam a adquirir uma proporcionalidade usual, que conforta o olho, mas não deixa de surpreender por sua dramaticidade. Tudo isso cheio de cor – e cor vibrante, estalada, cheia de contraste. Quando, muito raramente, a cor falta, há um realce da riqueza dos veios da madeira nua.


Dentro desse universo formal, há personagens caros ao artista. Basta ver o número de santos, sereias e bichos. É um universo mítico, que evoca uma interação com a natureza. Uma relação transparente – para usar uma expressão recorrente do artista quando fala da forma que se revela.


Essa simbiose do homem com a natureza está nos santos, sobretudo no São Francisco, que carrega pássaros na cabeça e nas mãos e integra miticamente esses dois mundos. O mesmo tema está nos “domadores” da natureza representados nas figuras do Mensageiro do pavão[3] ou do Homem com a siriema[4] – neste último, há uma fusão vertical entre os dois personagens, e pássaro e homem viram um.


Essa narrativa vertical e circular, afim às colunas barrocas, fica mais evidente no caso de São Jorge,[5] em que a história inteira se conta de uma só vez: cavalo, homem, lança, dragão, morte, valentia e coragem estão todos bem contados em cada peça, como uma vitória em um só ato. Essa exuberância narrativa da imagem do São Jorge contrasta com os traços mais econômicos das sereias, que ora aparecem com braços postiços, empunhando um espelho, ora aparecem com o corpo liso, reto, sem os membros, mas cheias de cor.  Vez ou outra parece que a madeira facilita a economia da forma e o artista evita os membros e os adornos.


Há um conjunto inteiro que merece atenção: as cabeças de promessa, que o artista faz sob encomenda. Cada uma tem sua personalidade. Dois conjuntos parecem se diferenciar aquele em que a pintura salta aos olhos e outro marcado por uma espécie de vontade da madeira, que persiste na versão final do entalhe do artista. Neste conjunto, há uma aproximação com o universo popular dos ex-votos,[6] as “esculturas de fé”, muito comuns no Nordeste brasileiro.


Há que se dizer que o trabalho de Antonio de Dedé se encaixa perfeitamente no conceito de arte popular, sobretudo se essa marca estiver ligada ao sentido da origem rural do artista e de sua marginalidade com relação ao mercado da arte – mas também se encaixa em outros rótulos, se observada a complexidade de uma cosmogonia própria em primeiro plano. Pode ser chamado de outros nomes e poderia ser visto sob outros esquemas teóricos, mas, para evitar cair em uma armadilha da ordem dos conceitos redutores, apresento o convite para olhar a obra de perto.


Roberta Saraiva.


  [1] Daniel Reis. Expressões na madeira – Família Antônio de Dedé. Rio de Janeiro: Centro Natural do Folclore e Cultura Popular /IPHAN/MinC, 2010 (catálogo de exposição), p. 28.




[2]Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro - org. Teimosia da imaginação – Dez artistas brasileiros. São Paulo: Martins Fontes, 2012, p. 14. 




[3] “Aqui de ‘premeiro’ tinha pavão à vontade. Eu gosto de olhar pra natureza. É um guiador dos pássaros. É um estimador da função. Ele ensina o bicho a progredir no tempo. O pavão é um pássaro moderno, é um pássaro divertido, alegre, do campo.  É um pássaro campeiro. É a natureza.” – entrevista do artista em 30 de junho de 2013.


 [4] “É um domador. A siriema é um pássaro bem progredido, é um animal relento. Eu fiz um homem domando ele.” – entrevista do artista em 30 de junho de 2013.




 [5]“’Ói, tá vendo uma lua daquela ali?’ Tem o São Jorge, tem o cavalinho dele, tá perfeito.  ‘O povo diz que não existe o São Jorge,mas expliquei, ele é tão fino que daqui dá pra perceber a réstia do cavalo lá. Ele é um santo guerreiro, tá em toda parte, entre o bem e o mal, afastando toda a força do mal, deixando o povo limpo.” - In Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro - org. Teimosia da imaginação – Dez artistas brasileiros. São Paulo: Martins Fontes, 2012, p. 13. 




Trilha Sonora


Hermeto Pascoal. Hermeto Pascoal ao Vivo - Montreaux Jazz (1979). Dixco 1, lado B; Lagoa da Canoa.


 Hermeto Pascoal. Lagoa de Canoa Município de Arapiraca (1983).




[1] LéliaHermeto Pascoal. Lagoa de Canoa Município de Arapiraca (1983). Coelho Frota. Pequeno dicionário da arte do povo brasileiro, século XX. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2005, p. 18

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Release

Antonio de Dedé | esculturas 


NA GALERIA ESTAÇÃO 


Abertura: 12 de setembro, às 19h - Até 31 de outubro de 2013


Com curadoria de Roberta Saraiva, a Galeria Estação apresenta 38 esculturas na individual do artista alagoano Antônio de Dedé (Lagoa da Canoa, AL, 1957) que, em 2012 participou coletiva “Histoires de Voir”, organizada pela Fundação Cartier, em Paris e do projeto Teimosia da Imaginação, – livro, documentário e exposição no Instituto Tomie Ohtake. Autodidata, de Dedé aprendeu a arte observando o pai trabalhar a madeira na carpintaria e diz ter uma relação “transparente com a sua criação”. Segundo ele, a sua habilidade é um dom que surgiu da sua vontade de recriar o trabalho do pai. O resultado deste talento herdado pode ser visto neste conjunto de peças inusitadas, mas que fazem parte da sua realidade, como animais, santos e figuras humanas, com cores e tamanhos variados, de 50 centímetros a 2 metros de altura.


Antônio de Dedé começou a talhar aos 8 anos, criando brinquedos como carrinhos, aviões e peões que vendia pela vizinhança. Na adolescência, a sua obra se desenvolveu quando passou a trabalhar em uma olaria, onde usava o barro para “queimar os bonequinhos junto com as telhas” e, com isso, começaram a surgir patos, bonecos e cavalos modelados, queimados e pintados. “No meu trabalho, eu tava descobrindo o ouro”, conta o artista. Com o tempo, a olaria foi se extinguindo e de Dedé começou a usar a madeira como matéria prima principal para suas esculturas.


Sempre com muita cor, é possível encontrar peças de pequena escala com membros de proporção naturais, no entanto, o trabalho do artista é característico por suas esculturas geralmente verticais, com extremidades comprimidas, nas quais o corpo alongado com pés pequenos e os braços sem fim com mãos encolhidas geram um contraste particular. Para Roberta Saraiva, “as peças ganharam corpo e tamanho e se estabeleceram numa verticalidade de proporções curiosas, de expressão e colorido ricos, que fazem lembrar as carrancas que outrora se erguiam à proa dos barcos do rio São Francisco.” Com dentes, olhos arregalados, bigode, sobrancelha e unhas pintadas, cada detalhe dos personagens esculpidos por de Dedé é extremamente marcado.


A expressividade do entalhe e a dramaticidade de cada peça são características marcantes na obra de Antônio de Dedé. Um trabalho que, segundo a curadora, “se encaixa perfeitamente no conceito de arte popular, sobretudo se essa marca estiver ligada ao sentido da origem rural do artista e de sua magnitude com relação ao mercado da arte – mas também se encaixa em outros rótulos, se observada a complexidade de uma cosmogonia própria em primeiro plano.”


Antônio de Dedé (Lagoa da Canoa, AL, 1957)


Antônio Alves dos Santos, filho de Dedé Lourenço, mora com os 5 filhos em Lagoa da Canoa, a 150 km da capital Alagoana. Começou esculpindo seus brinquedos aos 8 anos e descobriu o barro quando foi trabalhar em uma olaria. Assim como muitos artistas populares, migrou para a madeira por conta da escassez do barro. Seus primeiros trabalhos ainda eram de pequeno porte, lembrando os brinquedos como o Cavalinho de orelhas de couro e o Papagaio de asas cor-de-rosa. Depois vieram as figuras do touro e do tigre, longilíneas e com os membros reduzidos, anunciando a proporção “esticada” dos trabalhos futuros do artista.


Serviço:


Antônio de Dedé  - Esculturas


Abertura: 12 de setembro, às 19h (convidados)


Até 31 de outubro de 2013, de segunda a sexta, das 11h às 19h, sábados das 11h às 15h - entrada franca.


Galeria Estação


Rua Ferreira de Araújo, 625 – Pinheiros SP


Fone: 11.3813-7253


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