Exposições na Galeria

Jogo dos sete erros | Ranchinho e Rodrigo Andrade | de 30/08/2012 a 31/10/2012

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Apresentação

O centro do Universo.

No final dos anos 70 eu morava em Assis, no interior de São Paulo, e ali funcionava o centro do Universo. Eu pegava a bicicleta e percorria bucólicas estradinhas de terra nos entornos da cidade até encontrar uma mangueira solitária num pasto infinito. A arte me assombrava no alto da mangueira – e também debaixo ou longe dela-, e no horizonte eu vislumbrava, além de plantações de soja e crepúsculos sangrentos, os vultos dançantes de Carlos Castañeda, Rubem Fonseca, Chitãozinho e Xororó, Jimmi Hendrix, Werner Herzog, Glauber Rocha, Carlos Zéfiro e Hugo Pratt. Foi nesse cenário que descobri o Ranchinho.

Na verdade eu já conhecia o Ranchinho antes, mas como o louco da aldeia.

Desde criança notava a figura desconjuntada, vestindo um terno puído, mancando a caminho da catedral e alheio aos meninos que o cercavam e zombavam dele. Um andarilho alucinado, pensava eu, mais um dom Quixote a enfrentar moinhos de vento pelas ruas da cidade.Ranchinho tinha uma certa semelhança com o Carlitos, de Charles Chaplin. 

Só mais tarde descobri que Ranchinho, mais que um maluco que ia à missa todo dia e grunhia palavras ininteligíveis, era um artista inquieto e inventivo. Reproduzia com guache em caixas de papelão as visões que lhe rendiam as andanças pela cidade e adjacências: um enterro, galinhas numa granja, um trem que desliza pelos trilhos, bois numa pastagem, os personagens de um circo mambembe, uma noite de lua cheia.A visão daquelas pinturas teve para mim o efeito de uma revelação. 

Por intermédio de José Nazareno Mimessi, morador da cidade, pesquisador e colecionador de arte, conheci  melhor a obra de Ranchinho. Mimessi reconhecera o talento descomunal do homem e o ajudava, incentivando-o a pintar e divulgando seu trabalho em mostras de arte primitiva. Mas nas pinturas de Ranchinho não se distinguiam as imagens comuns da arte primitiva, ou naïf. Ali se contemplava a construção de um mundo pictórico que transportava Assis para além de qualquer mapa ou localização geográfica e a acomodava ao lado da Arles de Van Gogh sob o ponto de vista de alguém que viajasse a bordo da Enterprise,  a nave espacial de Jornada Nas Estrelas. 

Decidi que faria um documentário sobre aquele homem. O que fatalmente se tornaria também um documentário sobre aquela cidade. Munido de uma câmera Super-8 comecei a perseguir o Ranchinho. No princípio ele se mostrou incomodado com a minha presença e a da câmera - mesmo depois de Mimessi explicar-lhe que eu admirava suas pinturas e queria registrar seu cotidiano e a forma como pintava -, mas depois acostumou-se e passou a demonstrar afeto por mim e, creio eu, também pela câmera. 

Filmei Ranchinho em seu périplo diário pela cidade e suas idas constantes à igreja.Testemunhei sua atração obsessiva por enterros e velórios.Registrei seu método de trabalho – inspirado por um documentário que assitira sobre Jackson Pollock -, num canto da casinha de madeira onde ele morava, uma edícula situada no quintal de uma casa maior em que viviam parentes. Ranchinho pintava da mesma maneira que andava pela rua: ele parecia se mover dentro de um sonho, ou de uma engrenagem invisível que o submetesse a uma outra atmosfera. 

Filmei várias de suas pinturas e depois tentei reproduzi-las filmando pela cidade as imagens e situações que supostamente haviam inspirado aquelas obras. Acordava às quatro da manhã e me encaminhava até um entroncamento ferroviário em busca do trem que atravessava Assis vindo de São Paulo a caminho de Presidente Prudente. Dediquei uma tarde inteira a filmar galinhas numa granja distante. A espera por um circo que aportasse na cidade atrasou em algumas semanas o fim das filmagens. 

Quando o filme ficou pronto (com uma trilha sonora que misturava heavy-metal e modas de viola) inscrevi-o em alguns festivais de Super-8.  Não me lembro se fiz uma exibição em Assis em que estavam presentes amigos, o Mimessi e algumas pessoas que admiravam a obra do Ranchinho. Também não lembro se o Ranchinho chegou a ver o filme. Lembro que, alguns anos depois, quando eu já cursava a faculdade de arquitetura em Santos, o filme teve exibição numa sala de aula em que os dez ou quinze presentes aplaudiram as imagens estranhas sobre uma cidade estranha e um homem ainda mais estranho. 

Depois guardei o filme numa caixa e muitos anos depois constatei que ele havia desaparecido. Mas não perdi as pinturas do Ranchinho, que me permitem levar comigo - onde quer que eu esteja - o centro do Universo.

Tony Bellotto

 

 

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Curador

Uma experiência pictórico-psicodélica


Ao ser convidado para uma exposição em dupla com Ranchinho, pinturas minhas ao lado das dele simplesmente, achei difícil, mas quando abri o arquivo que me enviaram com fotos das suas pinturas, as imagens atingiram em cheio minha retina e instantaneamente se formou em minha mente a ideia de fazer “réplicas” daquelas pinturas. Imaginei-as do mesmo tamanho, tão idênticas quanto possível, se diferenciando apenas pelo uso do meu “método”, ou seja, primeiramente desenhando sobre uma projeção fotográfica na tela, depois fazendo a pintura propriamente dita sobre as marcações do desenho, e por fim aplicando uma grossa camada de tinta em algumas áreas definidas pelos recortes numa máscara ou estêncil. E assim foi feito.


Chamo essas minhas versões de réplicas por serem diferentes, por exemplo, das famosas versões de Picasso para pinturas de Manet ou Velázquez, onde a evidente subversão das pinturas originais era dada de saída. No meu caso, procurei manter um caráter de imitação de tal forma que de longe elas parecessem idênticas às originais, e a diferenciação fosse percebida apenas de perto, procurando assim surpreender o espectador e criar diferentes níveis de relação com as originais. Aqui, a presença do par – a pintura original e a réplica lado a lado – é fundamental. Só assim é possível ver quanto são parecidas e quanto são diferentes. Esse é o jogo.


O processo me colocou numa posição incomum, a de imitar o modo de pintar de outro artista, no caso, a maneira rápida, ansiosa, de um só fôlego, como Ranchinho pintava. Usei pincéis redondos, como os que ele usava, geralmente maiores e mais estropiados do que os detalhes pediam. E tentei manter a mesma rapidez, o que para mim é algo natural, uma vez que eu mesmo também tenho certa urgência semelhante. Curioso ter de usar toda minha destreza para imitar uma gestualidade canhestra. E ao pintar “do mesmo jeito” que ele, de certa maneira entrei na sua mente agitada, o que me abriu um espaço psicológico esquisito e interessante.


Apesar de sua falta de técnica, Ranchinho tinha uma extrema habilidade para ordenar suas cenas numa visão de tudo ao mesmo tempo, numa totalidade que sua pintura frenética era capaz de configurar quase que num golpe só, e com detalhes surpreendentemente agudos em meio às pinceladas aparentemente toscas. Ele tinha uma doença mental e parece que só sossegava pintando. Se havia algo de psicótico nele, certamente ele encontrou na psicodelia de suas pinturas uma felicidade que de outro modo talvez jamais pudesse encontrar. Nós, ao olhar suas pinturas, podemos ver algo dessa felicidade, bem como de seu doido frenesi. Espero que minhas versões possam acrescentar interesse às suas potentes pinturas.


 


Rodrigo Andrade

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Release

 O JOGO DOS SETE ERROS 


RANCHINHO E RODRIGO ANDRADE - 10 PINTURAS E 10 VERSÕES 


NA GALERIA ESTAÇÃO 


Abertura: 30 de agosto, às 19h – Até 31 de outubro de 2012


Depois de realizar em 2010 a exposição Arte brasileira: além do sistema, na qual artistas populares foram expostos ao lado de contemporâneos, a Galeria Estação vem promovendo o encontro entre esses dois mundos. Em O Jogo dos sete erros, a convite da galerista Vilma Eid, o artista Rodrigo Andrade (São Paulo, 1963) se propôs a fazer releituras de obras de Ranchinho (Sebastião Theodoro Paulino da Silva - 1923, Oscar Bressane - SP / 2003, Assis - SP). O resultado desta “pictofagia” está reunido na exposição com 10 trabalhos inéditos do artista contemporâneo expostos lado a lado às telas do pintor egresso da cultura de raiz.


Diferentemente de Picasso, que modificou conceitos e formou uma nova escola ao retratar o famoso Almoço na Relva, de Manet, Andrade utilizou-se da apropriação, processo da linguagem contemporânea, e procurou a perfeição em suas releituras do mestre popular. O artista fotografou as obras e projetou as imagens em telas brancas, replicando cada pincelada.


O deslocamento entre as versões é pequeno, sutil. De longe, chegam a ser idênticas, com as mesmas nuances no desenho e as diferenças surgindo apenas num olhar aproximado. O título da exposição, O Jogo dos 7 Erros, parte exatamente dessa semelhança exacerbada, que só revela na camada grossa de tinta, marca característica de Rodrigo Andrade, no olhar aproximado. O músico Toni Belotto, que é de Assis, mesma cidade de Ranchinho, já fez um filme em super 8 sobre o artista e assina texto para o catalogo da exposição.


Sobre Ranchinho


Nascido no interior de São Paulo, filho de bóias-frias, Sebastião Theodoro Paulino da Silva, o Ranchinho, foi uma criança frágil e fraca, com muita dificuldade para desenvolver-se e aprender. O desenho sempre foi uma prática constante. Com o tempo não parava mais em nenhum trabalho, vivia sempre em casebres abandonados, catando sucata para vender. Por volta de 1970, o escritor e estudioso de arte José Mimessi, ensinou-lhe o manejo do guache e aos poucos sua obra chegou à cidade de São Paulo, provocando o interesse de vários colecionadores, impressionados com as soluções que adota em suas pinturas. Em 2000, convidado por Emanoel Araújo, fez a releitura da tela de Almeida Jr.. “Caipira picando fumo”, de 1893, que integrou na mostra “Almeida Júnior, um artista revisitado”, na Pinacoteca de São Paulo. Ranchinho participou ainda da Bienal Nacional de São Paulo (1976); da Bienal dos 500 anos (2000); da Bienal Naifs do Brasil, Piracicaba, São Paulo (1994) e de inúmeras outras coletivas, entre as quais podem ser destacadas: “Pintura primitiva no Brasil”, Museu Carrillo Gil do México (1980); “40 pintores primitivos”, Museu Guido Viaro, Curitiba 1981 e “O trabalho na pintura popular”, no Museu da Casa Brasileira, São Paulo (1982).


Sobre Rodrigo Andrade


Estudou no Studio of Graphics Arts, em Glasgow, Inglaterra e frequentou o curso livre de gravura e pintura na Escola de Belas Artes de Paris, França. Desde o início de sua carreira, recebeu importantes prêmios em salões nacionais de arte. Participou da 29ª Bienal de São Paulo (SP) em 2010 e recebeu bolsa Vitae de artes plásticas em 2004. A partir de 1986, realizou diversas exposições individuais em São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Belo Horizonte (MG), e participou de inúmeras exposições coletivas no Brasil e exterior. Em 2000, iniciou uma série de intervenções pictóricas em espaços públicos: Projeto Parede no Museu de Arte Moderna - MAM de São Paulo (SP); Lanches Alvorada, em um bar no centro de São Paulo (SP), e Paredes da Caixa no museu da Caixa Econômica Federal em São Paulo (SP).


 


Serviço:


O Jogo dos sete erros - Ranchinho e Rodrigo Andrade - 10 pinturas e 10 versões


Abertura: 30 de agosto, às 19h (convidados)


Até 31 de outubro de 2012, de segunda a sexta, das 11h às 19h, sábados das 11h às 15h - entrada franca.


Galeria Estação


Rua Ferreira de Araújo, 625 – Pinheiros SP


Fone: 11.3813-7253


Informações à Imprensa


Pool de Comunicação – Marcy Junqueira


Contatos: Marcy Junqueira e Martim Pelisson


Fone: 11. 3032-1599


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