Exposições na Galeria

Arte Brasileira: além do sistema | de 09/09/2010 a 13/11/2010

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Apresentação

 Arte Brasileira: além do sistema.

Quando Paulo Sérgio Duarte, convidado para a curadoria de uma exposição na Galeria Estação, sugeriu esse título e selecionou os artistas, comecei a pensar no que isso poderia dar.

Aberaldo, Alcides,Chico Tabibuia, Elizabeth Jobim, Fernanda Junqueira, Fernando da Ilha do Ferra, Gabriela Machado, Germana Monte-Mór, José Bezerra, Manoel Graciano, Nuno Ramos, Samico, Tunga e Véio criativos que em comum tem a elevada qualidade no seu fazer artístico.

Nosso trabalho na direção da galeria objetiva mostrar exatamente isso; arte é arte e ponto final.

O texto do Paulo Sérgio nos embasa para, cada vez mais, reforçarmos aquilo que na prática temos aplicado. O que é bom convive e não há preconceito que destrua essa lógica.

É assim, com muita alegria, que apresentamos mais essa exposição. Sentimos que nosso trabalho, cotidianamente desafiador , tem conquistado um maior número de adeptos e, também aqueles que sempre tiveram olhos para a arte popular têm sido importantes multiplicadores dessa verdade incontestável.

Esperamos que essa mostra, montada propositadamente por ocasião da ...Bienal de São Paulo, traga um público curioso, alerta e, sobretudo, em busca da poética na arte.

Vilma Eid

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Curador

Paulo Sergio Duarte


Esta exposição quer provocar o seu olhar e reflexão. É apenas o início de um trabalho que pretendo desenvolver, mas que me preocupa há muitas décadas. Pelo menos desde que, em janeiro de 1979, depois de conhecer a coleção de Silvia Coimbra, em Olinda, visitei o atelier de Galdino, no Alto do Moura, em Caruaru, após quase nove anos de ausência do Brasil. Ali me encontrei não somente com a obra, mas também com um artista inteiramente consciente da sua condição de criador de um conhecimento poético. Já conhecia a aventura modernista, os textos de Mário de Andrade, as descobertas de Augusto Rodrigues. Tinha convivido, talvez até um pouco demais, com a arte conceitual e com o ressurgimento da pintura na década de 1970, na Europa. Mas me intrigava a ausência da arte popular nas exposições coletivas que contemplavam os artistas, digo provisoriamente, “eruditos”. Por que essa “reserva de sistema” para artistas de um determinado nicho em detrimento de outros? No capítulo da arte chamada contemporânea ou do “sistema da arte” somos obrigados a nos confrontar com trabalhos de dar dó, coisas realmente desprezíveis, não somente em galerias, como em bienais e grandes feiras, e, no entanto, muita força poética está ausente porque o “sistema” não admite o confronto com esta outra intensidade. A arte popular pode ser facilmente compreendida e avaliada se colocada lado a lado com a produção da chamada arte contemporânea.


São os limites do chamado “sistema da arte” que precisam ser pensados. Por que obras da arte popular não podem ser colocadas ao lado das obras de “arte contemporânea”? Porque as fronteiras do “sistema da arte” são pensadas à luz de três instituições: a estética, a academia e instituições conexas – sobretudo os museus –, e o mercado. Essas três instituições não apenas interagem; parecem integradas de tal forma que não apenas inibem, mas proíbem a hipótese de pensar lado a lado as produções poéticas de diferentes origens. Com o acréscimo, agora, das questões da arte e tecnologia, a distância parece aumentar. Toda essa diferença é uma bobagem diante da poética. As baboseiras francamente primitivas que se fazem utilizando-se dos mais recentes recursos digitais é enorme. O que se precisa é repensar não uma teoria da arte contemporânea mas uma teoria contemporânea da arte que dê conta dos processos poéticos independentemente da origem das obras. É disso que não estamos sendo capazes a não ser em processos isolados. Não estamos sendo capazes de demonstrar teoricamente o quão incipientes são os limites das instituições diante das práticas artísticas. Mais do que investir nos processos particulares de cada artista popular, o que já vem sendo feito com eficácia, é preciso tecer todo um território teórico que possa subsumir as produções de ambos os lados como uma só: a arte, não importa sua origem. Num nível abstrato, uma estética da diferença, em substituição à estética da superação, daria conta do recado.


De fato uma avassaladora estética da diferença vem sendo desenvolvida no interior do “sistema da arte”: dá conta e explica as últimas piruetas de uma performance, os restos de poeira ou talco no canto de uma sala ou a louça suja numa pia fotografada e ampliada em escala espetacular. Tudo isso que descrevi encontra-se em galerias de arte e em bienais internacionais. O que essa estética não admite? Que o reconhecimento da diversidade e das diferenças nas manifestações poéticas contemporâneas tem que andar acompanhado da razão judicativa. O velho e bom juízo estético que avalia de modo refletido diferentes intensidades poéticas. Entretanto, preferiram transformar o território da arte contemporânea numa clínica na qual os “críticos” e “teóricos” fazem “diagnósticos” para não emitirem juízos críticos. Fica tudo igual, como num eletroence falograma plano. Os médicos sabem bem do que estou falando. Este esboço de estudo visual aqui apresentado ainda está muito longe do exercício de uma tese de estética. Os trabalhos nem mesmo sussurram um diálogo, nada é explícito, mas já é um pequeno desenho do fracasso de um sistema que insiste em tratar tudo horizontalmente, num relativismo exagerado que reprovo, e, no entanto, dá as costas a uma formidável obra.


Tantos discursos sobre o “outro”, a “alteridade”, a “diferença”, para quê? Para nada, porque o “outro”, a “alteridade”, a “diferença”, ou a categoria ou o conceito que encontrarem para designar essa outra coisa, continua ausente de suas ações. Num certo sentido, com todas essas “diferenças”, o “sistema da arte” vem trabalhando sempre o mesmo. É preciso pensar essa história. E não me venham com o argumento infame de que se trata de populismo depois que se visitam as obras panfletárias de qualquer bienal.


Uma marca da modernidade, com todas suas contradições e paradoxos, na arte foi ser mais inclusiva do que exclusiva. Foi um longo processo esse que vai, no seu início, de “A morte de Marat”, de David, passando pelo “Déjeuner sur l’herbe”, de Manet, pela A guerra, do Douanier Rousseau, até as “Demoiselles d’Avignon”, de Picasso. A época exigia uma subversão de temas antes desprezados, que passassem ao proscênio: marinheiros semimortos que praticaram a antropofagia para sobreviverem na balsa precária tiveram o mesmo tratamento da tela de uma importante batalha, como em Géricault; a genitália feminina exposta com seus pelos em Courbet; o acontecimento óptico da experiência da distância em Monet; as formidáveis frutas desarranjadas e a mesma montanha, todas, dezenas de vezes em Cézanne; os tigres nunca vistos de Rousseau; as máscaras africanas nos rostos das mulheres brancas da rua do prostíbulo de Barcelona, de Picasso. Tudo isso era inclusão de novas linguagens. Além de pintores da vida moderna, a arte se apresentava no mundo procurando desafios.


A subversão total dos valores parecia estar realizada durante a carnificina da Primeira Grande Guerra. A revolta Dada e o inteligente trabalho de Duchamp iriam resolver tudo: depois da morte de Deus, também na arte tudo era permitido. Desde o mictório de Duchamp até a lata de merda de Manzoni, tudo seria possível. Mas não é. Toda essa história da “diversidade” ou “diferença” é parcial porque se mantém em valores construídos de modo, digo, hoje, acadêmicos, para não dizer fundados numa falsa epistemologia, palavra ainda muito pouco preparada – pelo território que recobre – para enfrentar o problemático território conceitual da arte. Nada entenderam de Duchamp. Ainda, hoje, com todo o palavrório da pós-modernidade e seu relativismo inconsequente, é proibido confrontar potências poéticas de diferentes origens 


Em qual grande mostra de arte contemporânea se apresenta a arte popular lado a lado com isso que se chama contemporânea? Existem episódios, pontuais, um artista popular aqui, outro ali. Vão me dizer: na área da música se passa a mesma coisa. Quando uma apresentação de música clássica se permite intercalar com uma apresentação de música popular? Raramente. Quando muito uma orquestra sinfônica interpreta uma música popular. O que não é a mesma coisa. Cathy Berberian, mezzo-soprano dedicada ao repertório da nova música, chegou a tentar quebrar essas barreiras. Agora mesmo, Jessye Norman, após dez anos de ausência do mercado fonográfico, reaparece com um disco que, pela primeira vez na sua trajetória de grande diva, incorpora peças de jazz, spirituals, junto com Bizet, Poulenc e outros autores. São episódios isolados. O problema é o mesmo. Estamos segregados, ainda que no mundo da música, mais disciplinado do que este agora chamado de “artes visuais”. Sim, são mundos diferentes. No mundo da música, mais consciente de sua história, basta observar os programas das orquestras ao redor do mundo, ninguém dá cambalhotas com a mesma permissividade que nesse da arte contemporânea.


Mas vivemos em guetos.


Aqui, na exposição, por um momento, estão juntos artistas de diferentes origens. Esse foi o problema que arrumei. Não há nenhum “nexo curatorial” entre essas diferentes potências poéticas, ainda mais que preponderam as questões pictóricas e gráficas nos chamados “eruditos” sobre as escultóricas nos “populares”. Mas esse foi um entre muitos desafios que se apresentam .


O recorte de artistas populares foi inteiramente realizado a partir do acervo de Vilma Eid. O primeiro que enfrentei, estejam certos, foi o da excelência. Todos os trabalhos aqui apresentados procuram e alcançam uma elevada qualidade em seu campo de trabalho, não importa a origem.


Droga, você vem sempre com essa sua conversa mole e ainda tem coragem de dizer que o “sistema da arte” apaga as diferenças, que trata sempre o mesmo. A mesmice é você. Vai falar da Cathy Berberian, da Jessye Norman! Por que não ficou logo por aqui com Paulo Moura, tem alguém melhor para exemplificar na música o que você queria dizer? É verdade, não tinha, mas tenho que terminar o texto e com você aí me controlando não vai dar. Controlando nada. Você nem notou que eu estava de vestido novo no jantar e até passei batom. Não notei mesmo, foi por causa do seu cabelo, está lindo, e depois tive que esquizofrenar bastante para me abstrair e não ouvir aquela conversa babaca. Gilda, Rita Hayworth, Ali Khan, meu Deus, e pensava que estava velho. Agora deixa eu terminar o texto. Não foge não. Por que você não falou do Paulo Moura? Fugir de quê? Você que veio falar de vestido e de batom. Tá fugindo. Quando o Baden Powell morreu, em 2000, a gente estava em Paris. Você se lembra? A France Culture dedicou pelo menos doze horas de programação em sua homenagem com chamadas de meia em meia hora anunciando seu falecimento. Aqui, Paulo Moura morreu e a MEC FM dedicou meia hora, às onze e meia da noite. Entendeu? É essa a diferença, e você vem com a musa do Berio e a diva negra norteamericana. Sinto muito, e depois vem falar que quer ir além do sistema. Mas que esse sistema está uma babaquice, isso está. Olha o Véio, ali tem mais cultura híbrida que qualquer exemplo do Canclini. São homens-máquinas formidáveis, redondos. E a pintura do Alcides? Tudo plano pronto para um movimento virtual. Melhor que o imaginário de muito videogame, e é uma pintura de ensinar a muito jovem neopop o que poderia ser uma vertente da pintura atual.


Não quero o encontro de cultura erudita com popular na mesma obra, para isso me basta o jazz e Samico, um erudito que faz isso genialmente. Queria era juntar mesmo, para quebrar um pouco esse falso Iluminismo que alguns... Iluminismo, cara, Iluminismo? Pelo amor de Deus, só você ainda acredita nisso. Mas estava dizendo que era falso. Mas falou, falou porque você ainda acredita que poderia existir um verdadeiro. Coisa chata. E eu sei que nessa história de escrever “diferença”, “repetição” entre aspas você está tentando desacreditar o Deleuze. Quem é você? Por favor, não vamos começar de novo a falar sobre o fim da verdade. E depois não escrevi nenhuma vez “repetição” entre aspas, pelo menos até agora. Não tenho nada contra Deleuze como um amigo meu, tão poeta e quase neopositivista quando aborda a filosofia da segunda metade do século XX. Ele faz isso muito bem porque acredita mesmo no território fundado por Kant. Mas seu amigo detesta Heidegger. Ele e a torcida do Flamengo. Para muitos filósofos aquilo é conversa fiada. O problema são os deleuzianos como você. Aliás, os deleuzianos estão me saindo pior que os lacanianos. Adorava o Paulo Moura, o artista e a pessoa carinhosa sempre que nos encontrávamos.


Você tem toda razão. O Paulo Moura é o melhor exemplo que poderia usar de um artista que transitava entre diversos territórios eruditos e populares. Na música é possível. Aqui não é. Adoro Pixinguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho, o “Falso amor sincero” do Nelson Sargento. Depois músicos, com diferentes formações, erudita ou não, podem interpretá-los. Ao contrário da música, na arte não há diferença entre compositor e intérprete, qualquer criança percebe isso, mesmo que não formule. Admitir essa convivência da diferença aqui na arte é diferente da música. Você sempre vem com essa história de falar em arte e música como se a música não fosse arte, literatura, dança e teatro não fosse arte. Calma, era apenas uma convenção que pode estar sendo revogada pelos seus teóricos pós-modernos. Ninguém escreve uma história da arte musical, uma história da arte literária, se escreve história da música e da literatura, mas quando se escreve uma história da arte já se sabe do que se está tratando. É tão horrível assim? Você já leu uma história das artes visuais italiana ou uma história das artes plásticas grega? Qualquer um que seja, Argan, Gombrich ou Janson, você já imaginou outro título para seus livros que não seja história da arte? Você está implicando muito. E você pensa que não estou vendo esse gravador ligado aí? Você vai depois usar para aqueles minicontos sujinhos que você coloca na rede. Não pensei nisso, mas está me dando uma ideia. E essa turma que você está pondo aí de penetra na exposição. Assim é que não vou mesmo terminar nunca e já estou devendo há muito tempo à Vilma e à Germana, que tem que fazer o catálogo, mas com você pegando no meu pé desse jeito não dá, porque não volta para sua literatura? É isso que você quer. Acha que vai além do sistema e depois recruta um bando de amigas e amigos para lhe respaldar: Beth, Samico, Gabriela, Fernanda, Nuno, Germana, Tunga. Você não tem vergonha? Que culpa tenho eu de ser amigo dos melhores, e são tantos outros que ainda não chamei para futuras aventuras além do sistema. Chega, você ainda vai entender. É isso que eu quero com essa exposição Arte Brasileira: Além do Sistema.

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Release

A exposição Arte brasileira: além do sistema, com a curadoria de Paulo Sergio Duarte, vai ocupar os três andares da galeria Estação São Paulo. A força poética de dois polos da arte brasileira – aquele conhecido como “arte contemporânea” e no outro extremo a arte popular – é apresentada numa seleção da obra de quatorze artistas: Aberaldo, Alcides, Beth Jobim, Chico Tabibuia, Fernanda Junqueira, Fernando da Ilha do Ferro, Gabriela Machado, Germana Monte-Mór, José Bezerra, Manoel Graciano, Nuno Ramos, Samico, Tunga e Véio.


Para o curador “É hora da teoria contemporânea da arte rever seus limites e extrapolar as fronteiras do chamado ‘sistema da arte’. A potência plástica e a inteligência artística não são privilégios de valores instituídos; ao contrário, encontram-se presentes fora de territórios oficiais. Essa exposição é uma pequena mostra de um enorme continente a ser incluído na reflexão estética contemporânea.”


PAULO SERGIO DUARTE é crítico, professor de história da arte e pesquisador do Centro de Estudos Sociais Aplicados – CESAP - na Universidade Candido Mendes, no Rio de Janeiro. Dirigiu programas públicos na área da educação e da cultura para os governos federal, estadual e municipal (Rio de Janeiro). Projetou e implantou o programa Espaço Arte Brasileira Contemporânea - Espaço ABC, da Funarte, de 1979 a 1983, dirigindo, de 1981 a 1983, o Instituto Nacional de Artes Plásticas, desta mesma entidade. Foi o primeiro diretor geral do Paço Imperial / Iphan, de 1986 a 1990, responsável por sua implantação como centro cultural e responsável pela curadoria de diversas de suas exposições. Foi curador geral da 5ª Bienal do Mercosul (2005), em Porto Alegre, e curador geral do programa Rumos Itaú Cultural Artes Visuais 2008/2009, entre inúmeras outras exposições. Publicou, entre outros, os livros Arte Brasileira Contemporânea – um prelúdio [Rio de Janeiro: Ed. Silvia Roesler / Instituto Plajap, 2008]; A Trilha da Trama e outros textos sobre arte [Rio de Janeiro: Funarte, 2004, 2ª edição, 2010]; Carlos Vergara [Porto Alegre: Santander Cultural, 2003]; Waltercio Caldas [São Paulo: Cosac & Naify, 2001] e Anos 60 – Transformações da arte no Brasil [Rio de Janeiro: Campos Gerais, 1998].


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