Exposições na Galeria

Odette Eid | Minhas Cabeças | de 11/06/2008 a 18/08/2008

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Apresentação

Conheço Odette Eid há muitos anos e acompanho seu percurso artístico por todo esse tempo.

Ela superou, em muito, todo o seu trabalho anterior, com a jovialidade e o humor que sempre lhe foram peculiares, desabrochando ainda mais nessa fase traduzida especialmente pelas Cabeças.

Odette encontrou ao longo do seu percurso escultórico, o contato direto com suas mãos, manuseando os mais diversos materiais como gesso, arame, retalhos evocativos de roupas usadas por entes queridos. 

Cabeça foi feita para pensar, refletir, imaginar, evocar. É o resumo de tudo em nossa vida.


Paulo Vasconcellos

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Curador

Por mais que venha acompanhando há anos o trabalho de Odette Eid, sua mais recente criação não deixa de ser uma surpresa. Suas “Cabeças” revelam a maturidade plena de sua obra e talvez o melhor dela. Como não apreciar essas formas ao mesmo tempo minimalistas e exuberantes ou a expressão dessas criaturas que nos olham com jeito irônico, zombeteiro, às vezes com arzinho sedutor ou até mesmo num muxoxo falsamente emburrado? Gostei, e muito delas. Cabeças não são novidade na trajetória de Odette, repetindo-se na sua obra em bronze, isoladas ou no mais das vezes reunidas de modo tenso em grupos figurando lembranças, duas irmãs, homens de minha vida, um grito de liberdade ou mesmo a criação do Homem. Na reiterada expressão do movimento que anima essas esculturas, elas se revelam, a seu modo, como avatares das criaturas de pano mais propício à expressão de sentimentos e emoções, denunciando a dualidade e a tensão dos opostos. Isto é o que está presente, por exemplo, nas figurinhas masculinas e femininas engolidas por uma imensa boca voraz aberta dos dois lados, criada sob a inspiração de uma obra antiga de Salvador Dali. O que é novidade, portanto, não é o tema ou a matéria da obra, mas a extraordinária síntese que essa nova série de Cabeças nos apresenta. Antes, elas formavam parte de conjuntos díspares, em convívio desigual: de um lado, a escultura “séria” e, de outro, as criações mais livres e lúdicas que, no entanto, alguns consideravam com mera forma de “artesanato”... Agira, com a competência que lhe conferem a técnica e o saber do seu ofício, ela molda essas novas cabeças de papel e gesso como levíssimas peças escultóricas que lembrariam talvez Picasso, na assimetria e distorção de suas formas, se não apresentassem outras características a nos lembrar também, de modo indiciário, vagas máscaras burlescas de um teatro de mamulengo ou de um cavalo marinho. Pois as máscaras, assim como disfarçam, também revelam o que por trás delas se esconde. E é no espírito lúdico das máscaras populares que as Cabeças de Odette nos revelam a plena liberdade alcançada por sua criação. Não lhe bastou criar a forma escultórica: foi preciso pintá-la e ataviá-la de adornos para que se completasse sua verdadeira expressão. Então entrou em cena tudo o que ela tinha em casa ou pudesse achar à mão: lãs, cordas, botões, tranças de fio de tapeçaria, franjas, passamanaria, correntes, brincos e colares de bijouteria, fio de arame e minúsculas placas metálicas e uma extraordinária profusão de retalhos de malha e outros tecidos finíssimos. Renda de um vestido de casamento, seda comprada para uma roupa de festa, mas vistosa demais para um gosto sóbrio e, portanto, jamais usada (mas agora recortada pacientemente para figurar em quase todas as cabeças), um bordado sobre algodão canelado que um dia pertenceu a um roupão de enxoval de noiva e muitos outros tecidos, de outras tantas roupas de gala e festa, oferecidas pelas amigas: tudo espalhado em torno de Odette, para permitir-lhe escolher cada tecido ou adorno em função das texturas e/ou da combinação das cores... Tudo feito sem premeditações, da pintura expressiva do gesso à montagem final das cabeças, com a alegria e a grave seriedade com que uma criança se entrega a um brinquedo... Por sua fatura, essas Cabeças se aproximam não só das esculturas e das bonecas de tecido de sua produção anterior, como também, sobretudo, das grandes figuras de um presépio que Odette criou tempos atrás, e em que mostrou o mesmo cuidando da confecção de suas vestes. Em especial, elas se aparentam a um dos Reis Magos, todo brancura e adornos sutis, com sua roupa feita de tecido simplezinho, como convém à humildade Mãe de Deus, mas São José traz a cabeça coberta pelo tradicional lenço listrado que é um símbolo nacional palestino... “Eu me vinguei, não?”, diz Odette, matreira, mostrando imagens dessas peças... É que nenhuma dessas escolhas é aleatória. Condensadas, as figuras do presépio podem agora reduzir-se tão somente a cabeças sem perder a expressividade, resumindo uma experiência de vida. Quando, aos 60 anos de idade, Odette pôde enfim entregar-se à paixão pela arte, que a acompanhou desde sempre, conseguiu alcançar a emancipação e a realização que hoje se espelham em sua serena maturidade. Recentemente, a uma pessoa que lhe perguntava sobre detalhes técnicos da fatura de suas Cabeças, Odette respondeu sabiamente: “Você primeiro precisa conhecer essa velhinha de 85 anos, pois não vai poder entender meu trabalho sem me conhecer”. E em parte ela tem razão. Aqui, as criaturas são indissociáveis de quem as cria, e cada uma dessas Cabeças, todas diferentes umas das outras, libertadas do emaranhado em que se achavam nas esculturas e nas bonecas de tecido, ganharam plena autonomia e agora podem expressar delicadas nuances de estados de espírito, resgatando, nos retalhos de belos tecidos de um tempo passado, restos de história, fragmentos de memória, sentimentos, fantasias e sonhos que parecem enfim ter encontrado um lugar definitivo na alma de Odette. Contudo, enganar-se-á quem esperar encontrar nela a figura dessa “velhinha” que ela diz ser. Uma alegria serena de realização transborda de sua figura esfuziante de uma vitalidade de menina e imanta suas Cabeças, dando-lhes a expressão marota de quem sabe o que quer e faz o que bem entende, com plena consciência do próprio poder. “Nesta idade acho que não preciso agradar a ninguém, faço o que gosto e me dá prazer... Você gostou? Gostou... Não gostou? Gostasse...” Eis a lição de sabedoria e liberdade que nos transmitem essas peças de extraordinária criatividade de Odette Eid.


Janete Costa

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Release

“Com seus ascendentes fincados em outros sertões, lá longe, no Oriente Médio, Odette nos transmite com suas cabeças a alegria e o drama da vida breve na arte longa.” José Nêumanne Pinto


Na abertura da exposição será lançado o livro sobre a série Tudo começou na década de 80, com intrigantes bonecos de pano, mas, em seguida, Odette Eid (1922, Líbano, chega ao Brasil em 1925) foi dominar a técnica da escultura em bronze, freqüentando os ateliês de Domenico Calabrone e Elvio Beccheroni, e o desenho, com Odetto Guersoni. Depois vieram outros cursos de especialização, muitas exposições no Brasil e exterior e os prêmios. Agora, no auge dos seus 85 anos, retomando sua linguagem primordial, Odette concebe Cabeças, de onde brota, com surpreendente frescor, sua maturidade artística. A nova série ganha exposição na Galeria Estação e versão em livro, que será lançado na abertura da mostra, com textos de Janete Costa, José Nêumanne Pinto, Marcelo Araújo, Paulo Vasconcellos, Ricardo Ohtake e Antônio Hélio Cabral (com renda revertida para o Hospital Sírio Libanês).


São 32 criaturas femininas que remetem às metamorfoses surrealistas e ao mesmo tempo às ingênuas expressões dos bonecos populares.


Em comum, a liberdade, a capacidade de transformação para instaurar novos vocabulários. “Com a competência que lhe conferem a técnica e o saber do seu ofício, ela molda essas novas cabeças de papel e gesso como levíssimas peças escultóricas que lembrariam talvez Picasso, na assimetria e distorção de suas formas, se não apresentassem outras características a nos lembrar também, de modo indiciário, vagas máscaras burlescas de um teatro de mamulengo ou de um Cavalo Marinho”, explica Janete Costa.


A série Cabeças, segundo Marcelo Araújo, “assemelha-se ao teatro de guinhol, animada por uma força interior que parece explodir de vitalidade”. Cada uma, depois de moldada e pintada, recebe uma infinidade de adornos que a artista coleciona ao seu redor, para contar histórias diferentes com lãs, cordas, botões, tranças de fio de tapeçaria, franjas, passamanaria, correntes, brincos e colares de bijuteria, fios de arame e minúsculas placas metálicas, extraordinária profusão de retalhos de malha e outros tecidos finíssimos, como uma renda de um vestido de casamento, uma seda comprada para uma roupa de festa etc.


“Tudo feito sem premeditação, da pintura expressiva do gesso à montagem final das cabeças, com a alegria e a grave seriedade com que uma criança se entrega a um brinquedo”, afirma Janete Costa. Nestes trabalhos, Odette Eid convida o espectador a também refletir sobre o enigma dos rostos. As Cabeças guardam expressões que revelam, escondem, divertem, compartilham, ironizam, intimidam, tornando-se difícil, às vezes, até encará-las. Quem sabe porque a artista, nesta “grande brincadeira”, nos coloca diante de nós mesmos.


 


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