Exposições na Galeria

Fernando Diniz | de 09/09/2019 a 09/10/2019

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Apresentação

Fernando Diniz

Para mim, a dra. Nise Da Silveira e o Museu de Imagens do Inconsciente foram sempre ícones a ser seguidos e estudados.
Os artistas forjados naquele ambiente de doenças da psique e arte foram e serão sempre motivo de admiração, dada a qualidade estética extraída da espontaneidade e da sensibilidade de cada um deles. Daquele ateliê de pintura surgiram e foram reconhecidos artistas como Adelina Gomes, Carlos Pertuis, Raphael Domingues, Emygdio de Barros, Fernando Diniz, entre outros.
Eu já conhecia o trabalho de alguns deles, mas nunca pensara que fosse possível adquiri-los, até que um dia me ofereceram uma tela do Fernando Diniz. É uma natureza-morta, lindíssima, que, apesar do meu receio, tomadas todas as precauções e depois da certeza de que a compra era legítima, adquiri. Soube então que Diniz estivera doente em certa época da sua vida e que a própria família, para ajudar no custeio do tratamento, vendera algumas obras. Sorte minha... uma delas estava comigo.
Alguns anos depois, num leilão, adquiri outro quadro do Fernando Diniz, uma paisagem com igreja, bem diferente do primeiro, mas de igual qualidade. Eles estão em casa, mas, agora, por pouco tempo...
Quando conheci o Eurípedes Júnior e a Christina Penna e soube da luta deles pelo Museu de Imagens do Inconsciente, não pensei duas vezes: doei as duas telas. Nada mais justo do que elas voltarem ao museu, que é a sua casa.
Foi assim que esta exposição nasceu. As obras são todas do museu, vieram emprestadas para a mostra e não estão à venda. Para nós, da Galeria Estação, não poderia haver honra maior. Estamos orgulhosos de ter recebido esse presente e proporcionar a vocês, nossos amigos, a oportunidade de conhecer ou rever a obra do Fernando Diniz.

Vilma Eid

 

 

 

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Curador

Fernando Diniz

Nasceu em Aratu, Bahia, em 1918. Mulato, pobre, nunca conheceu o pai.
Aos 4 anos de idade veio para o Rio de Janeiro com sua mãe, que era excelente costureira. Morando em promíscuos casarões de cômodos, costumava acompanhá-la quando ela ia trabalhar em casas de famílias ricas e abastadas.
Desde garoto o sonho de Fernando era estudar para ser engenheiro. Inteligente, foi sempre o primeiro aluno da classe. Chegou até o 1º ano científico, mas abandonou os estudos.
Em julho de 1944, foi preso e levado para o Manicômio Judiciário, sob a alegação de estar nadando despido na praia de Copacabana. Em 1949, foi para o Centro Psiquiátrico Pedro II, onde começa a frequentar a Seção de Terapêutica Ocupacional (STO). Por não aceitar os tratamentos psiquiátricos violentos em uso na época, a dra. Nise da Silveira fundou a STO, cujo principal objetivo era estimular a capacidade de expressão de seus frequentadores.
Quando chegou ao ateliê de pintura, Fernando Diniz não levantava a cabeça e sua voz baixa mal se ouvia. Ao ser perguntado sobre a razão da beleza de suas pinturas, respondia: “Não sou eu, são as tintas”. Em sua obra mescla o figurativo e o abstrato, abarcando das mais simples às mais complexas estruturas de composição. Presença constante em suas obras é o geometrismo, marcado muitas vezes pela imagem do círculo, que representa as forças ordenadoras, curativas, da psique.
Uma dessas imagens circulares proporcionou o primeiro prêmio de sua carreira: uma exposição promovida pela Fédération des Sociétés de Croix Marine foi inaugurada em 15 de outubro de 1957, na Salle Saint-Jean do Hôtel de Ville de Paris. Uma comissão de críticos de arte atribuiu o prêmio hors concours a uma mandala de Fernando Diniz. O hebdomadário parisiense Carrefour publicou um artigo onde a série de pinturas de Fernando é comparada a uma experiência artística bastante comum entre os pintores modernos, qual seja o movimento que vai das primeiras tentativas de figuração até as estruturas de abstração geométrica.
Em certa época, Fernando regrediu por motivos adversos. Durante longo tempo suas pinturas foram garatujas caóticas. Nise da Silveira então experimentou colocar uma monitora para atuar como uma catalisadora de seus sentimentos. Para surpresa de todos Fernando começa a retirar do caos imagens relacionadas com temas japoneses. Então disse à monitora que ela parecia uma japonesa. Segundo Nise da Silveira, ”Aparecida tinha distantes semelhanças com o tipo japonês, mas suficientes para transpor ao outro lado do mundo, o Japão, a inacessível mulher amada, que estava tão perto”. Os traços leves e delicados da série da japonesa vêm então contrastar com as fortes pinceladas e o abstracionismo formal dos desenhos caóticos precedentes.
Além de produzir intensamente no ateliê do museu – de quatro a seis trabalhos por dia –, Fernando Diniz recolhia todo tipo de papel que encontrasse no hospital e em suas cercanias, levando-os para o seu quarto. Ali, utilizava esses materiais como suporte para suas criações, denominando-as “Reciclados”. Velhos lençóis lançados ao lixo pela administração hospitalar foram recuperados por ele: costurando-os, construiu um suporte para as pinturas de grandes dimensões que denominou Tapetes digitais.
Fernando Diniz gostava de expor ideias sobre a elaboração de suas obras a qualquer pessoa que se interessasse por elas. Em uma pintura que intitulou Árvore das emoções associa cada cor a uma emoção: o amarelo é a glória, o rosa, amor, o marrom, paixão, o azul profundo, ciúme. Em outro momento diz: “O primeiro desenho que eu aprendi foi uma gota d’água, depois uma pera, uma folha. Eu pensava: um dia eu vou aprender isso por dentro”.
Em 1992 o Museu de Imagens do Inconsciente realizou uma grande retrospectiva de sua obra, O universo de Fernando Diniz, ocupando com mais de duas centenas de trabalhos os espaços do Paço Imperial da Praça XV, no Rio de Janeiro. Fernando ia diariamente à exposição, sentava-se a uma mesa na entrada onde atendia com prazer os visitantes que lhe solicitavam autógrafos no catálogo. Em geral, fazia pequenos desenhos à guisa de dedicatória, compartilhando sua criatividade diretamente com o público.
Fernando considerava-se um eterno aprendiz. Sua ânsia de conhecimento levou-o a imaginar o hospital como uma universidade, e, apesar de sua longa reclusão, era impressionante a quantidade de informações que acumulava. Sua paixão pelos livros fazia-o constantemente atualizado com os acontecimentos e descobertas científicas. Manifestava interesse por astronomia, química, física nuclear e informática, revelando-se um pesquisador incansável.
O resultado gráfico de toda essa atividade é um caleidoscópio de imagens ora sucessivas, ora superpostas, dinâmicas e coloridas. Do espaço para o tempo, do inorgânico para o orgânico, do geométrico para o figurativo ou vice-versa, Fernando ia tecendo seu universo. Visitou os espaços interiores da casa sonhada, e as amplidões das paisagens; fragmentou ou reconstruiu o corpo humano, submetendo-o aos movimentos dos jogos, dos esportes; esquematizou objetos e seres, imaginou objetos científicos, executou verdadeiros tornados geométricos prenhes de formas cuja multiplicidade extrema por vezes levou-o ao caos, de onde sempre retornava trazendo novas e inesperadas imagens, como os seus últimos abstratos, onde logomarcas, fórmulas químicas, signos e símbolos se misturam para criar um luxuriante universo de coisas, um inventário do mundo.
Para Mário Pedrosa ”Fernando é um novo e autêntico pintor. A força decorativa de que é profundamente dotado o artista não desarma nunca, ritmo e cor se organizam sempre, alternando-se em ordem e graça. Os exercícios concêntricos com que Fernando enche papéis e mais papéis terminam por organizar verdadeiras engrenagens universais como sistemas que, se vêm do caos, mais se aparentam a relojoarias em busca de uma ordem intuída”.1
Segundo o próprio Fernando, foi a participação no filme Em busca do espaço cotidiano, de Leon Hirszman, que despertou nele o interesse pelo movimento da imagem. Pintou e desenhou uma série inspirada pelo cinema em que utiliza movimentos de zoom e outros elementos da linguagem cinematográfica, integrando na imagem as dimensões do tempo e do espaço.
Esse interesse resultou no premiado desenho animado Estrela de oito pontas, para o qual realizou mais de 40 mil desenhos sob a orientação do cineasta Marcos Magalhães. Entre comentários, trechos onde toca gaita em pareceria com o violão de Lenine e vertiginosas sequências de imagens que se desdobram em inúmeras e improváveis transformações, nessa animação Fernando faz uma síntese de sua obra: a sequência final mostra um cavaleiro, cujo galope percorre os principais temas que ele pintou, marcos de um território trazido à existência pela sua inesgotável capacidade criativa.
Sua produção no Museu é estimada em cerca de 30 mil obras: telas, desenhos, tapetes, modelagens. O reconhecimento do seu trabalho veio através de exposições no Brasil e no exterior, prêmios, publicações, filmes e vídeos. Sua obra foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 2003.
Adoecido, foi transferido para o Hospital Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde foi acolhido com carinho. Apesar da gravidade de sua doença, Fernando continuou a produzir alguns temas recorrentes de sua rica criação, destacando-se as magníficas naturezas-mortas e abstratos que fazem parte desta exposição.
Fernando morreu em 5 de março de 1999.


Nota
1 PEDROSA, Mário. Museu de Imagens do Inconsciente. Coleção Museus Brasileiros, v. 2. Rio de Janeiro, Funarte, 1980.


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Release

Galeria Estação

Apresenta
Individuais de Fernando Diniz e Josef Hofer, artistas cujas divergências da mente e do corpo não encontram limites na arte.
Abertura 9 de setembro, às 19h – 09 de outubro de 2019

A duas mostras são desdobramentos do Seminário Internacional A arte como construção de mundos"que acontece paralelamente à mostra “Bispo do Rosário: As coisas do mundo”, na Fundação Marcos Amaro, em Itu, dia 07 de setembro, evento apoiado pela galeria Estação que traz como uma das palestrantes a Dra. Elisabeth Telsnig, tutora da obra de Josef Hofer e curadora da exposição do artista em São Paulo.

Fernando Diniz (1918, Aratu, Bahia – 1999, Rio de Janeiro, RJ) está entre os artistas forjados no ambiente da Dra. Nise Da Silveira, hoje reunidos no Museu de Imagens do Inconsciente, instituição parceira da Galeria Estação na realização desta individual em sua homenagem. Com curadoria de Luiz Carlos Mello e Eurípedes Junior, a mostra institucional traz um recorte de pinturas da produção de Diniz estimada em cerca de 30 mil peças, entre telas, desenhos, tapetes e modelagens. Com sua obra tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 2003, o reconhecimento do artista é ainda saudado pelas inúmeras exposições no Brasil e no exterior, prêmios, publicações, filmes e vídeos.

“Não sou eu, são as tintas”, esta era a sua resposta, quando frequentava, a partir de 1949, a Seção de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Pedro II, criado por Dra. Nise. Segundo os curadores, Diniz mescla o figurativo e o abstrato, abarcando das mais simples às mais complexas estruturas de composição. “Presença constante é o geometrismo, marcado muitas vezes pela imagem do círculo, que representa as forças ordenadoras, curativas, da psique”.

Além de ter produzido intensamente – de quatro a seis trabalhos por dia –, Fernando Diniz recolhia todo tipo de papel que encontrasse no hospital e em suas cercanias, levando-os para o seu quarto. Ali, utilizava esses materiais como suporte para suas criações, denominando-as “Reciclados”. Velhos lençóis lançados ao lixo pela administração hospitalar foram recuperados por ele: costurando-os, construiu suportes para as pinturas de grandes dimensões que denominou Tapetes digitais.

Os curadores destacam a ânsia por conhecimento do artista, que chegou a imaginar o hospital como uma universidade. “A sua paixão pelos livros fazia-o constantemente atualizado com os acontecimentos e descobertas científicas. Manifestava interesse por astronomia, química, física nuclear e informática, revelando-se um pesquisador incansável”. Sua curiosidade pelo conhecimento levou-o ao cinema. Foi a sua participação no filme Em busca do espaço cotidiano, de Leon Hirszman, que despertou seu interesse pelo movimento da imagem. Esse interesse resultou no premiado desenho animado Estrela de oito pontas, para o qual criou mais de 40 mil desenhos sob a orientação do cineasta Marcos Magalhães.

Em 1992 o Museu de Imagens do Inconsciente realizou uma grande retrospectiva de sua obra, O universo de Fernando Diniz, ocupando com mais de duas centenas de trabalhos os espaços do Paço Imperial da Praça XV, no Rio de Janeiro.

“Do espaço para o tempo, do inorgânico para o orgânico, do geométrico para o figurativo ou vice-versa, Fernando ia tecendo seu universo. Visitou os espaços interiores da casa sonhada, e as amplidões das paisagens; fragmentou ou reconstruiu o corpo humano, submetendo-o aos movimentos dos jogos, dos esportes; esquematizou objetos e seres, imaginou objetos científicos, executou verdadeiros tornados geométricos prenhes de formas cuja multiplicidade extrema por vezes levou-o ao caos, de onde sempre retornava trazendo novas e inesperadas imagens, como os seus últimos abstratos, onde logomarcas, fórmulas químicas, signos e símbolos se misturam para criar um luxuriante universo de coisas, um inventário do mundo”, concluem Luiz Carlos Mello e Eurípedes Junior. 

Josef Hofer (1945, em Wegscheid, Bavária), hoje considerado um “clássico” da Art Brut, tem sua obra conhecida na Áustria, Alemanha, França, Mônaco, Holanda, Bélgica, Inglaterra, Suécia, Dinamarca, Itália, Espanha, Portugal, Polônia, República Checa, Eslováquia, Estados Unidos, Japão e agora no Brasil. Difícil imaginar como artista chegou hoje aos seus 74 anos diante de tantas dificuldades. Começou com seu nascimento, em março de 1945, quando, até agosto do mesmo ano, esteve em vigência na Alemanha a Lei para Proteção da Saúde Genética do Povo Alemão, que exigia a médicos e parteiras o relato imediato do nascimento de uma criança com deficiência. As consequências eram a morte do recém-nascido e a esterilização pelo menos da mãe. Embora suas características físicas divergentes fossem visíveis desde o início, nada foi informado às autoridades de saúde. Mais tarde, isolado com a família em uma fazenda, também com problemas de audição causados pelas inúmeras infeções de ouvido que acabaram afetando também a fala, não pode frequentar a escola, como seu irmão mais velho. Este, mesmo com deficiência intelectual, trazia para casa lápis e tocos de lápis de cor com os quais Hofer costumava desenhar sobre uma folha de jornal. Com a morte do pai, Hofer foi levado pela mãe para Kirchschlag, perto de Linz, onde ficou sob a guarda de uma sobrinha. Desde 1992 vive em Lebenshilfe em Ried im Innkreis. Lebenshilfe,organização social para pessoas com deficiências físicas e intelectuais,  onde conheceu a historiadora de arte Elisabeth Telsnig, em 1977. “Cerca de trinta pessoas participavam de meu ateliê, entre elas Josef, e notei de imediato seus desenhos. Eles eram diferentes de qualquer coisa que eu já tinha visto”, afirma Telsnig. “Como não pode ouvir nem se fazer entender verbalmente, Josef Hofer se comunica com o mundo exterior por meio de sua arte. Está envolvido criativamente consigo mesmo e com seu corpo e, assim como no modo como está envolvido com seu reflexo no espelho, ele se envolve igualmente com as posturas e posições do corpo representado, e supera, ou até mesmo triunfa sobre sua deficiência através dos corpos que desenha”, completa.

Elisabeth Telsnig é curadora, doutora em história da arte e chefe do workshop de atividades criativas das instalações comunitárias de Lebenshilfe Oberösterreich em Ried (Áustria), onde Josef Hofer participa semanalmente. Ela é tutora do artista desde 1997.

Sobre Seminário Internacional: “A arte como construção de mundos". 
Local: Fundação Marcos Amaro / Itu / 07 de setembro
O encontro – organização ARTE!Brasileiros – tem como objetivo apresentar para o público a enorme riqueza e diversidade de artistas, ex-pacientes psiquiátricos no Brasil e no mundo, ligados ao movimento inicialmente nomeado pelo pintor francês Jean Dubufett como Art Brut, e debater sobre a beleza e a força contida na produção das obras de artistas asilares. Participam do evento Elisabeth Telsnig (representante do trabalho do artista austríaco Josef Hofer), Savine Faupin (curadora-chefe responsável por Arte Bruta no Museu de Arte Moderna, Contemporânea e Arte Bruta de Lille, França), Tânia Rivera (psicanalista, doutora em Psicologia e professora da Universidade Federal Fluminense) e Raquel Fernandes (diretora geral do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, Rio de Janeiro). A conversa será mediada por Ricardo Resende (curador da Fundação Marcos Amaro e do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea).
Informações:  jamyle@artebrasileiros.com.br - eliane@artebrasileiros.com.br

Exposições: Fernando Diniz e Josef Hofer
Abertura: 09 de setembro, às 19h
Visitação até 09 de outubro de 2019
Classificação livre
De segunda a sexta, das 11h às 19h, sábados das 11h às 15h - entrada franca.
Imagens: https://bit.ly/2GZSzFn

Galeria Estação
Rua Ferreira de Araújo, 625 – Pinheiros SP                                               
Fone: 11.3813-7253
www.galeriaestacao.com.br

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