Exposições na Galeria

Samico | de 28/05/2019 a 13/07/2019

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Apresentação

Samico

O querido Samico se foi logo depois da exposição que fizemos com suas obras, que contou com a presença dele e da doce e firme Celida, sua companheira da vida inteira.
Deixou muita saudade, mas, através do seu trabalho, é imortal.
Suas xilogravuras, um dos trabalhos mais importantes da arte brasileira, transbordam de detalhes, cores e histórias. Ele usava abundantemente a mitologia, na hora da criação, enriquecendo ainda mais a obra.
Pernambucano, escolheu Olinda para se fixar depois de passagens pelo Rio de Janeiro e pela Europa, e viveu sempre no mesmo casarão do século XVII, reformado e preservado por ele e Celida. Os visitantes eram bem-vindos. Na sala de visitas do casarão, sentado na cadeira de balanço, Samico apreciava uma boa prosa. Sua vida era simples, dedicada à família e ao trabalho. O ateliê era em casa, de forma que ele pouco saía. Era um homem que gostava da rotina.
Em 2012 mostramos os trabalhos que cobriam o período de 1992 a 2011.
Nesta mostra, curada por Ivo Mesquita, temos o privilégio de exibir gravuras que abrangem um período mais longo, que vem desde os anos 40. São na maioria P.A.s ou pequenas tiragens, como era seu hábito até 1999, quando passou a fazer edições de 120. As mais antigas têm uma bela história. Pertenciam a um velho amigo no Rio de Janeiro. A cada impressão, Samico tirava uma para si e outra para ele. Por um acaso feliz, elas chegaram às nossas mãos.
Aproveitem! Não é todo dia que temos essa oportunidade.

Vilma Eid

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Curador

Samico, quase retrospectiva
Ivo Mesquita 


Gilvan Samico (1928-2013) está entre os artistas mais importantes do século XX no Brasil e suas xilogravuras estão entre as mais originais e representativas dessa arte tão determinante para formação e difusão de uma visualidade moderna no país. Seu nome hoje alinha-se aos de Lasar Segall (1889-1957), Oswaldo Goeldi (1895-1961) e Lívio Abramo (1903-1993), fundadores e mestres da gravura brasileira no século XX, juntamente com outros grandes de sua geração, como Fayga Ostrower (1920-2001), Marcelo Grassmann (1925-2013), Arthur Luiz Piza (1928-2017) e Evandro Carlos Jardim (1935), que consolidaram essa prática artística como uma potente estratégia poética e social. 

Ligado ao Atelier Coletivo da Sociedade de Arte Moderna do Recife (1952), iniciativa semelhante ao Clube de Gravura de Porto Alegre (1950) e inspirada pelo programa do Taller de Gráfica Popular do México (1937), Samico estuda com Lívio Abramo em São Paulo, para onde se transfere em 1957, e depois, no Rio de Janeiro, em 1958, com Oswaldo Goeldi. Na década de 1960 retorna a Pernambuco e fixa-se em Olinda, cidade em que viveu e trabalhou até sua morte, exceto pelos anos 1968-70, quando residiu em Paris com o Prêmio de Viagem ao Exterior do 17º Salão Nacional de Arte Moderna (1967). Nos anos 1970, Ariano Suassuna, criador do Movimento Armorial, que tem como objetivo valorizar a cultura do Nordeste, buscando uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares da cultura do país, aponta Samico como um artista exemplar da poética desse movimento, sua maior e mais completa realização. “Mergulhando no universo do Romanceiro e reencontrando-se com as raízes de seu sangue, Samico pode regressar com seus Santos, seus Profetas, seus pássaros de fogo, seus dragões, suas serpentes, seus bois encantados e seus cavalos misteriosos, em gravuras que nos dão o aspecto de soberana simplicidade, de um virtuosismo técnico realmente impressionante.”1

Esta exposição, quase uma pequena retrospectiva do artista, reúne três grupos de gravuras representativos dos desdobramentos no processo do trabalho, na construção da sua obra impressa, já que Samico foi também desenhista e pintor. No primeiro deles, produzido entre 1958 e 1959, percebem-se, naturalmente, referências a obras de seus professores, sejam do ponto de vista temático, formal ou ideológico: Sem título, Menina com corrupios, Leitura na praça (todas de 1958), Três mulheres e a Lua (1959) são alguns exemplos. Porém, ao mesmo tempo, elas enunciam o pensamento abstrato que articula suas composições, jogando com linhas e formas figurativas no espaço, aliado ao gosto por texturas elaboradas na exploração da madeira, como podemos ver em Interior com menino e Interior com casal (ambas de 1958), ou em Figura e edifícios, Figura e folhas (de 1959).

No segundo conjunto, parte da sua profícua produção gráfica na década de 1960, pode-se ver o encontro do artista com as tradições populares da gravura de cordel e com o imaginário telúrico e fantástico das histórias e lendas dessa mesma literatura. Em oposição ao preto e branco tramado e denso do período anterior, o branco ganha força expressiva, enfatizando o caráter planar da imagem, com o uso sóbrio e pontual de cores vibrantes na delimitação de espaços e definição de planos – uma das marcas de sua obra, uma memória de Goeldi. Os gestos no talho da madeira abandonam certo expressionismo de raiz na xilogravura moderna, e tornam-se mais profundos, diretos, econômicos, sem vestígios na imagem final, chapada. A figuração, agora encerrada em um contorno, um quadro, é simplificada em favor da maior eficiência da imagem e da objetividade da representação, sempre uma cena vista frontalmente, sem perspectiva ou lembrança de qualquer espaço naturalista. Essas gravuras remetem às narrativas do cordel como João e Maria e o pássaro azul (1960), Juvenal e o dragão (1962), Alexandrino e o pássaro de fogo (1962), As três irmãs camponesas e o guerreiro do ar (1963), A traição (1964); ou a textos bíblicos e religiosos como A Virgem da Palma (1961), A queda do anjo (1965), Francisco e o lobo de Mântua (1969), entre tantos outros.

Esses trabalhos consolidam sua linguagem plástica, seu estilo direto e enxuto, e seu compromisso com a cultura vernacular, aliada à grande tradição da arte ocidental, representado pela abordagem de temas bíblicos e mitos clássicos da história. É a produção desse período que faz dele um artista de projeção nacional com o prêmio do Salão Nacional de Arte Moderna, em 1967, assim como lhe assegurou uma carreira internacional com participações nas Bienais de São Paulo (1961, 1963 e 2016, com artista convidado), de Paris (1961 e 1963), de Tóquio (1966) e por duas vezes no Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza (1963 e 1990), além de exposições e obras em museus como o Nacional de Belas Artes e o de Arte Moderna, no Rio de Janeiro; o de Arte Contemporânea da USP, o de Arte Moderna e a Pinacoteca do Estado, em São Paulo; o de Arte Moderna Aloísio Magalhães, no Recife; e o de Arte Moderna-MoMA, de Nova York.

O terceiro grupo de trabalhos, ou a última etapa de sua produção, segundo consenso entre seus críticos e admiradores, tem início com a gravura Suzana no banho, de 1966.2 Trata-se de um tema clássico da pintura, uma prédica moral, trabalhado por diferentes artistas desde o final do Renascimento, convertendo-se numa espécie de metáfora da própria arte: a casta Suzana – a personificação da beleza a ser alcançada, possuída – é libidinosamente observada por dois velhos rabinos – o tempo, o masculino – enquanto toma banho. O assédio visual sobre ela – objeto de contemplação e idealização – aponta para o princípio da arte como manifestação do desejo. A pulsão escópica, na busca da beleza, realiza-se no prazer de olhar.

Samico parece ter escolhido essa parábola moral e poética para afirmar os fundamentos do seu compromisso com a arte e da sua prática da gravura desde então, adotando método e procedimentos que põem em movimento uma depuração do trabalho, com composições articuladas a partir da divisão geométrica do espaço, demarcação de campos simétricos, a estruturação hierática da imagem entre séries de figuras, animais, elementos de paisagens, frutas, vegetação, motivos decorativos. A sua busca por ascetismo e exatidão como programa para aprofundar o processo de pensamento, trabalho, conhecimento, impõe limites à forma como que reduzindo ou restringindo a ação do artista. A partir de 1977, Samico adota um tamanho padrão de matriz, o taco a ser gravado, e passa a produzir apenas uma gravura por ano. Mas cada uma delas é objeto de dezenas de desenhos preparatórios, centenas de estudos de detalhes, nos quais “o artista se vê tragado pelo infinitamente mínimo”,3 num árduo percurso para chegar ao projeto final que orienta o trabalho artesanal do entalhador.

Então, as placas surgem de um gesto disciplinado, preciso a cavar a madeira, como um mantra repetido por um longo tempo silencioso e solitário, algo calvinista: extensas linhas paralelas, tramados regulares e seriados, figurações elaboradas, mas despidas de qualquer retórica. Como observa Ronaldo Correia de Brito, Samico é um mestre “na arrumação cuidadosa de espaços discretos”.4 O espelhamento das imagens e certa vibração ótica das linhas e padrões, por vezes, conferem um caráter cinemático à gravura, como um registro quadro a quadro do fazer do trabalho. Mas, a despeito desta “dinâmica” interna da imagem ou de qualquer sugestão de narrativa nos títulos, toda essa produção afirma-se como algo emblemático, próximo de um ícone religioso, com a entrega direta e total do seu sentido, com nada para além da sua presença singular e materialidade multiplicada, para sempre “uma obra que incendeia minha imaginação”.5 

Notas1 SUASSUNA, Ariano, “Samico e eu”, in BARROS LEAL, Weydson, Samico. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2011, p. 10.2 O Museu de Arte Moderna-MoMA de Nova York, possui uma cópia dessa gravura, juntamente com outras de Samico, e ela está reproduzida no catálogo da exposição Bloc Prints, organizada por Riva Castleman para aquele museu em 1983.3 CORREIA DE BRITO, Ronaldo, Samico: do desenho à gravura (catálogo). São Paulo: Pinacoteca do Estado, 2004, p. 11.4 Idem, ibidem, p. 10.5 SUASSUNA, Ariano, op. cit., p. 9.
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Release

SAMICO
NA GALERIA ESTAÇÃO
Abertura: 28 de maio, às 19h – até 13 de Julho de 2019

Em junho de 2012, a Galeria Estação realizou a última individual de Gilvan Samico (1928-2013) em São Paulo, com a presença do artista, que faleceria no ano seguinte. Em 2016, a sua obra marcou a 32ª edição da Bienal Internacional de São Paulo. Agora, nesta exposição com curadoria de Ivo Mesquita, a Galeria Estação presta uma nova homenagem ao grande mestre pernambucano, reunindo cerca de 34 obras que permeiam quase toda a sua produção: composições repletas de simbologia que têm na simetria e na verticalidade valores que organizam narrativas sobre a natureza, instâncias sagradas e a vida terrena. Integrante do Movimento Armorial, idealizado por Ariano Suassuna, Samico produzia em sua casa ateliê em Olinda, e foi um dos raros artistas que desenhava, gravava e imprimia manualmente seu trabalho.

A seleção de obras feita pela galerista Vilma Eid e por Ivo Mesquita está dividida em três grupos. No primeiro, Mesquita destaca gravuras que demonstram a influência dos professores de Samico (Lívio Abramo e Goeldi) em sua produção, como em Menina com corrupios, Leitura na praça (ambas de 1958) e Três mulheres e a Lua (1959). O curador ressalta que essas obras já exprimem o pensamento abstrato que articula as composições do artista.

O segundo conjunto reúne a produção dos anos 60, período em que Samico se encanta pelas tradições populares da literatura e da gravura de cordel, repletas de histórias e lendas que aquecem seu imaginário. “Esses trabalhos consolidam sua linguagem plástica, seu estilo direto e enxuto, e seu compromisso com a cultura vernacular, aliada à grande tradição da arte ocidental, representada pela abordagem de temas bíblicos e mitos clássicos da história”, afirma Mesquita. Segundo ele, ainda, é a produção desse período que faz dele um artista de projeção nacional.

No terceiro grupo, evidencia-se o momento em que o artista adota um tamanho padrão de matriz e passa a produzir uma única gravura por ano, que demandava inúmeros desenhos e estudos preparatórios, prática que ele exerce até o final (de 1977 até 2013). Os trabalhos desse período demonstram, segundo Mesquita, os fundamentos do seu compromisso com a arte e da sua prática da gravura desde então, adotando método e procedimentos que põem em movimento uma depuração do trabalho, com composições articuladas a partir da divisão geométrica do espaço, demarcação de campos simétricos, a estruturação hierática da imagem entre séries de figuras, animais, elementos de paisagens, frutas, vegetação, motivos decorativos. “A sua busca por ascetismo e exatidão como programa para aprofundar o processo de pensamento, trabalho, conhecimento, impõe limites à forma como que reduzindo ou restringindo a ação do artista”, completa.

Gilvan Samico (1928, Recife, PE) fundou em 1952 juntamente com outros artistas, o Ateliê Coletivo da Sociedade de Arte Moderna do Recife - SAMR, idealizado por Abelardo da Hora desde 1924. Em 1957 estuda xilogravura com Lívio Abramo na Escola de Artesanato do Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM/SP, e, no ano seguinte com Oswaldo Goeldi, na Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro. Em 1965, fixa residência em Olinda. Leciona xilogravura na Universidade Federal da Paraíba - UFPA. Em 1968, com o prêmio viagem ao exterior obtido no 17º Salão Nacional de Arte Moderna, permanece por dois anos na Europa. Em 1971, é convidado por Ariano Suassuna a integrar o Movimento Armorial, voltado à cultura popular nordestina e à literatura de cordel.

Exposição: SAMICO
Abertura: 28 de maio, às 19h (convidados)
Até 13 de julho de 2019, de segunda a sexta, das 11h às 19h, sábados das 11h às 15h - entrada franca.

Galeria Estação
Rua Ferreira de Araújo, 625 – Pinheiros SP
Fone: 11.3813-7253

Informações à Imprensa
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Contatos: Marcy Junqueira e Martim Pelisson
Fone: 11. 3032-1599
marcy@pooldecomunciacao.com.br / martim@pooldecomunicacao.com.br







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