Artista

Clovis Aparecido dos Santos

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Biografia

Clovis
1960, Avaré | SP

Clovis Aparecido dos Santos gosta de andar, é andarilho, caminha, vaga de um lado para outro na beira das estradas urbanas, na beira das grandes avenidas como a Linha Amarela, no Rio de Janeiro, que liga Jacarepaguá, na Zona Oeste, passando por Madureira, ao centro do Rio de Janeiro. Diz que quando caminha não pensa em nada, apenas compõe músicas e canta.

Um dia desses, já final de tarde quente carioca, retornando pela Linha Amarela da Colônia Juliano Moreira, onde ficam o Museu Bispo do Rosário e o Ateliê Gaia, Clovis foi avistado altivo e com olhar reto à sua frente. Caminhava com passos largos e rápidos em direção à Taquara, bairro onde localiza-se a colônia. Ao seu lado os carros em velocidade passavam deslocando o ar com suas sombras alongadas e os zunidos do motor, deixando como passagem no tempo uma mancha esticada, como aquelas vistas na pintura do alemão Gerhard Richter.

A história humana, desde a mais remota, a do homem ereto, é de deslocamentos. De ir de um lugar a outro. Atrás de comida ou de água, à procura de lugares mais seguros para procriar ou, por que não?, atrás de outras paisagens para morar. O ser humano vem de uma natureza vagante.
Em 2004, o artista participou de uma exposição, PuzzlePólis II, com curadoria de Lívia Flores, dentro da 26ª Bienal de São Paulo, com 58 trabalhos. A professora e artista criou uma miragem fantasmagórica de cidade com suas peças. Clovis cria fantasmas com suas formas estranhas, seres desformes e de colorido intenso que habitam o nosso inconsciente.
O artista contou um pouco de sua história para que eu escrevesse este texto sobre sua obra.

Nasceu em Avaré, interior do estado de São Paulo. Filho mais velho, ouviu de sua mãe à época, ainda muito jovem, que, se não tinha condições de ajudar na manutenção da família, deveria então procurar o próprio sustento. Foi a chance para ele pegar a estrada e seguir adiante, sempre em frente até chegar à rodovia que une os dois estados, São Paulo e Rio de Janeiro, a Via Dutra. Estrada em que é comum ver andarilhos e peregrinos nas suas margens.

De Avaré, que fica quase no centro do estado de São Paulo, Clovis passou por várias estradas até cair no Rio de Janeiro, catou rebarbas do lixo nas ruas quando puxava uma carroça. Tinha a consciência de estar fazendo o bem ao reciclar. Ainda é uma prática sua coletar. Não perdeu o desejo da busca e da caminhada. Recolhe os mesmos materiais hoje para reciclagem, como o papelão, as garrafas PET, brinquedos aos pedaços feitos de plástico e as lonas vinílicas residuais das propagandas políticas que persistem na paisagem das periferias da cidade, mesmo depois do período eleitoral. Agora não coleta mais para vender como antes, e sim usa o material como suporte para sua obra de arte.

Fala pouco, mas sempre com um sorriso nos lábios. De frases curtas mas certeiras, deixa a dúvida se está ali por algum distúrbio mental. O que parece é que encontrou abrigo nessa nova fase da Colônia Juliano Moreira, que, depois das mudanças manicomiais implantadas desde a década de 1990, não é mais hostil. Talvez seja por isso que lá ficou.

Discordando dos que ainda dizem que o que o Clovis faz não seria arte, pois, pela condição mental, não teria condições de “ter” a intenção de fazer arte, ele, pelo contrário, tem a clareza de que o que faz é arte.

O artista frequenta o Ateliê Gaia há mais de dez anos. O que o prende ali é a possibilidade de desenvolver o seu trabalho plástico, a tranquilidade para fazer os seus desenhos, as suas pinturas e as esculturas estranhas na forma de carros sob o olhar dos outros colegas de ateliê.

São estranhas estas formas que lembram a figura humana, de animais, vegetais e de carros. Fazem recordar seres de um filme pré-histórico da humanidade, mas também um mundo inóspito que parece que ainda vai existir daqui a milhares de anos.

Os desenhos, as pinturas e as esculturas do Clovis são de seres indefinidos e de carros toscos e engraçados. Quando esculturas, são feitos de uma mistura de restos de brinquedos e outras partes que ele constrói feitas de restos de ferro de construção civil, pedaços de madeira e arame. Uma mistura que tem como base a massa da técnica do papel machê. No lugar da cola, usa o cimento misturado ao papel de jornal e revistas. Modela essa massa na forma desses veículos que poderiam passar por brinquedos em outra época.

Nos desenhos e pinturas, que é o que predomina nesta primeira exposição apresentada pela Galeria Estação, com cocuradoria de Germana Monte-Mór, essas mesmas formas surgem ainda mais abstratas. Ora lembram a sombra de animais, ora lembram as formas dos próprios carros que Clovis inventa sobre papel e telas. Algumas cores predominam e estão mais para a vibração dos tons amarelos, dos verdes-abacate, do oliva e dos cítricos. Surgem as cores terrosas, como o marrom, o cinza, os vermelhos, os azuis, o rosa de fundo para uma figura disforme esverdeada. A cor da terra vulcânica, o branco e o amarelo combinados. É uma miríade de cores inusitadas.

Essas escolhas podem ter apenas o sentido da precariedade em que o artista cria. Poucos recursos, o uso de materiais pobres e poucas cores de tinta à disposição. Mas a combinação é inventiva e provocativa ao criar um padrão de cores e formas que ora lembram arabescos e símbolos decorativos com cores combinadas, ora inesperadas e destoantes. Em alguns trabalhos reconhecemos e não reconhecemos o que ele desenha ou pinta. Quando não caem no abstrato completo, as figuras sugerem seres viventes com olhos esbugalhados ou, ainda, animais como peixes, o elefante em noite estrelada, plantas, folhas e flores. Em um núcleo de desenhos pintados, aparece uma escrita indecifrável e compulsiva. Mais para um texto pintado que lembra os símbolos de uma escrita com traços.

Fiz ao Clovis uma pergunta para não deixar dúvida de como se dava sua criação. Perguntei-lhe o que pensava enquanto criava. Simples assim, respondeu: “Não sei. Tudo que faço vem das minhas mãos. Passa pelas minhas mãos”. E me mostrou as mãos grandes de quem trabalha com a força física e sujas de tinta.

Ao observar a serenidade do artista vem a ideia de que o manicômio não curava. Não tinha o que curar, talvez. Pelo contrário, pelos relatos dos ex-internos, ele (o manicômio) adoecia. Agravava o estado fragilizado dos que eram internados por “n” razões.

O sistema manicomial das colônias no começo do século XX, na ocasião em que foram criadas, foi defendido em artigo de jornal, da sua utilidade pública, como campos de concentração para excluir e eliminar da sociedade os indesejados. Portanto, nem todos que eram internados poderiam ser considerados loucos. Poderia ser uma pessoa com muita ideologia. Poderia ser um andarilho que não tinha rumo. Poderia ser um louco de fato. Poderia não ser um louco, apenas uma pessoa tímida acuada.

Dizem que no seu auge a Colônia Juliano Moreira chegou a abrigar cerca de 5.000 pessoas submetidas àquele sistema de internação prisional. Muitos sobreviveram a ele, outros sucumbiram a sua violência, outros foram além, passaram por ele e continuaram vivendo no entorno do antigo hospício em casas comunitárias ou em casas próprias com as famílias constituídas no contexto do fim do sistema hospitalar de internação.

Talvez agora essas pessoas se sintam mais livres, com o direito de ir e vir, e aquele lugar faz parte de suas memórias, queiram ou não, embora ainda as faça lembrar das atrocidades vividas por muitos ali.

Hoje o complexo hospitalar está mais para um espaço de convívio, onde se promovem várias atividades que estimulam uma vida comunitária. É aí onde encontra-se o Clovis. O artista encontrou o seu lugar ali junto de outros artistas no Ateliê Gaia, que tem orientação e coordenação do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea.

O ateliê funciona há quase três décadas formando artistas. Foi criado na esteira das propostas artísticas da doutora Nise da Silveira, médica do Rio de Janeiro que criou uma metodologia psiquiátrica terapêutica nos anos 1940 e 1950. A médica tinha a arte como estímulo para os pacientes em tratamento se sociabilizarem. Era uma forma de eles se prenderem no mundo e ainda fazerem arte.

O Ateliê Gaia é um espaço de arte e criação que, por meio da construção de um pensamento estético, estimula a prática artística de seus frequentadores através do diálogo e da produção, desenvolvendo com os artistas uma lógica de funcionamento autônoma.
E aí faço a pergunta: é arte o que o Clovis faz?

Esse questionamento ainda persiste nas conversas quando se trata de arte e loucura. Põem em dúvida se a obra de artistas que estão em situação de tratamento psiquiátrico seria arte ou apenas a obsessiva necessidade da esquizofrenia de acumular, transformar e fazer coisas.

Clovis acumula e cria coisas. Desenha e pinta sobre o papel. Cria imagens sobre telas feitas de papelão e plástico vinil. É o suporte que mais usa, a lona plástica para suas pinturas. Mas também usa o papel. Na verdade o artista usa qualquer superfície plana que encontrar. Inclusive, e é curioso, pinta sobre quadros já pintados que recolhe das ruas, incorporando suas molduras na sua pintura.

Com relação à matriz da obra do Clovis, o melhor paralelo que se pode fazer é com o neoexpressionismo alemão, vertente artística vista nos anos 80 e 90. Artistas como Georg Baselitz, Julian Schnabel, Anselm Kiefer, A.R. Penck, Sigmar Polke, entre outros, que ficaram conhecidos como as Novas Feras e foram identificados com os fauvistas e suas pinceladas violentas de cores fortes, são o que mais se aproxima da sua maneira de pintar.

Emoção, expressão, angústia, raiva, vigor, formas reconhecíveis ou não, o que não é totalmente abstrato nem totalmente figurativo. Fica entre as coisas disformes que habitam a memória dele e a nossa.

Nesse sentido, arriscaria perigosamente, e sem nenhuma sombra de dúvida, pensando no que nos traz Clovis do seu subconsciente, afirmar que a loucura é um estado vital para a arte. Pois sua arte vem dessa liberdade de se expressar não condicionada, condição tão necessária para criar. Sem amarras conceituais preestabelecidas.

É o que pode se apreender da obra do Clovis. O homem que foge mentalmente da normalidade seria, nessa lógica, mais liberto do que o mediano para criar, inventar e divagar no pensamento. Como diz o filósofo francês contemporâneo Frédéric Gros, no seu livro Caminhar, uma filosofia, ao afirmar que há algo de mágico no andarilho (aquele que caminha a esmo, que passeia, que percorre grandes distâncias) que cria, inventa, e pensa não pensar enquanto, simplesmente, anda.

Gros, em seu livro sobre o ato de caminhar, deixa a pergunta em aberto: por que muitos artistas e escritores importantes, como Rousseau, Kant, Rimbaud, Nietzsche e Jack Kerouac, adotaram essa prática de caminhar? A caminhada liberaria um fluxo poético?

É o que se apreende dessa leitura. Eu acrescentaria a essa relação artistas como o norte-americano Robert Smithson, o inglês Richard Long, a brasileira Ana Amorim com suas caminhadas performances que chama de Looking for Richard Long, o Arthur Barrio com o seu trabalho 4 dias 4 noites, em que deambula pelas ruas cariocas. A dupla gaúcha Maria Helena Bernardes e André Severo, que vão para o terminal de ônibus de Porto Alegre, pegam um ônibus qualquer e vão à cata de histórias fantásticas caminhando em cidades remotas do estado. Também o paulista Daniel de Paula, que incorporou a deriva pela cidade enquanto lê. A caminhada é tratada como uma performance e tornou-se uma forma de fazer arte hoje.

A ilusão da velocidade é a crença de que ela economiza tempo. Dias de caminhadas lentas são muito longos: eles nos fazem viver mais, porque você vive cada hora, cada minuto, cada segundo para respirar e mergulhar fundo nos sentidos.

Quando se caminha, nada se move ao seu lado. As montanhas estão paradas e aquela presença estática estabelece uma relação com o corpo. A paisagem é feita de sentidos. Gostos, cheiros e cores, essências que o corpo absorve.

Caminhar para apenas respirar na paisagem. Cada parada pode ser ou ter uma inspiração, pensar algo ou inventar algo, para morrer imediatamente depois.

Fiz outra pergunta ao Clovis, para encerrar, o que ele pensava enquanto caminhava. A resposta foi precisa. “Em nada. Eu componho música. Faço música na cabeça e canto.” Não memoriza o que faz, segundo ele.

Depois, a sua criação, a sua arte, como me contou nessa conversa, passa pelas suas mãos. Simples assim. E ele voltou a pintar imerso em uma pilha de papel.

A pintura e o desenho do Clovis são do ímpeto, a força criadora que move o homem sem nenhuma pretensão de filiar-se a uma corrente artística moderna ou contemporânea, e também não dá margem para devaneios conceituais.


Ricardo Resende




Galeria Estação
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