Artista

Mestre Galdino

Mestre Gaudino
S/T
João Marambá

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Biografia

Mestre Galdino
[Manoel Galdino de Freitas]
1924, São Caetano - PE / 1996, Alto do Moura - PE

Galdino, que imprimiu papel de carta em Caruaru, 1986, intitulando-se “Ceramista e Poeta”, é um dos mais importantes escultores atuantes no país no século XX. Prendia na mão dos seus personagens de barro, ou em reentrâncias da escultura, papeizinhos enrolados com versos que lhes diziam respeito. Para a parede de sua casa emoldurou poemas, em que lança o desafio da recepção do seu próprio trabalho, provocador por excelência: “Tem carranca com recorte/ criada por minha mão / com bichinhos diferente / que faz a circulação. / Mesmo as peças de Galdino / é uma adivinhação.” Em 1940 Galdino já havia ido para Caruaru, onde se casou com Maria Marciolina, rendeira e ceramista, teve três filhos e trabalhou em olaria, fazendo telha e tijolo. Empregado pela prefeitura, trabalhou como pedreiro. Começou, então, a iniciar-se na modelagem do barro. Durante a Semana Santa fez um Judas para a Malhação. Quando a prefeitura mandou que rebocasse o posto de saúde do Alto do Moura, em 1974, teve finalmente a oportunidade de ver como disse, “tanta riqueza, tanta beleza na arte de um povo”. Referia-se aos ceramistas Zé Rodrigues, Zé Caboclo, enfim, a toda a verdadeira escola que se havia formado em torno do mestre Vitalino. Com o transporte apaixonado que caracteriza sua personalidade, abandonou em 30 dias o serviço público e mudou-se com a família para o Alto do Moura. Viveu sempre na pobreza, sendo obrigado, em alguns períodos, a executar serviços de vária natureza para sobreviver e conseguir permanecer na arte. Inteiramente diversa dos demais artistas da localidade, a sua grande e original produção na década de 1970 atrai particular atenção dos especialistas em arte e da mídia, e ele extrapola os limites do Alto do Moura para ser conhecido pela elite do país. A escultura de Galdino se distribui por duas grandes séries de trabalhos. A das figuras hieráticas, alongadas e aguerridas de cangaceiros, como Maria Bonita, ou de personagens como “Sonho realizado”, em que têm início as simbioses de humano e animal que virão a ser tão frequentes no seu trabalho. A própria superfície das esculturas é também provocadora, aguerrida, no espinhado quase de cacto das roupas. Vê-se bem isto no Galdino poeta com seu violão. Em esculturas antológicas de quase um metro de altura, com inscrições no barro, como “Descobrimento do Brasil”, dos anos 1970, o aspecto de ferocidade da figura ainda humana, com um cocar na cabeça, trajes espinhados, é sublinhado pelos longos punhais em seu cinto. Na face posterior da escultura Galdino faz a incisão no barro das palavras que descrevem batalhas de “Jaraguá, de armas em punho, no túmulo do rei morto por um tabajara em uma aldeia africana, em 1413.” Tempos mitológicos, criados por ele para exprimir a sua percepção da história do país Brasil. Esse repertório de figuras desafiadores, tratado plasticamente com um verdadeiro esfolamento da matéria, desenvolve-se com inesgotável invenção ao longo das décadas de 1970 e 1980. Na década de 1990 o artista vai desenvolver outra grande série de figuras monstruosamente oníricas, como “Calango, Carranca corte de Vênus, Guariba Milena, Jaraguá”, em que o vestígio do humano é muito tênue. Em “Jaraguá”, um homem de face já simiesca cavalga um grande lagarto-dragão, cujo corpo tem resquícios de roda de carro. A antropomorfização do automóvel e do avião, que ele já começara nos anos 1980, chega aqui a transformar a máquina em coisa orgânica, imbricando-a, não sem sofrimento e humor, com o homem, seu condutor. Expões ele assim, com muita modernidade, a questão da violência exercida pela tecnologia sobre o indivíduo. Movimentando como um mestre os segmentos diversos em que suas figuras vão se desdobrando em pernas, braços, cabeças, ele os escarifica, retalha, incisa. Estes seres são esfinges ameaçadoras, às vezes antropofágicas, ou híbridas, como “Lampião-sereia”. Seu trabalho foi destacado na exposição “Brésil, Arts Populaires” (Grand Palais, Paris, 1987). Integra o acervo de importantes coleções e de museus de arte popular do país.

Pequeno Dicionário do Povo Brasileiro, século XX | Lélia Coelho Frota – Aeroplano, 2005




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