Artista

Louco

Louco
S/T
S/T
S/T
S/T
S/T
S/T
S/T
S/T
Santa Ceia
Santa Ceia
S/T

Ampliar texto

Biografia

Louco
[Boaventura da Silva Filho]
1932 / 1992, Cachoeira - BA

“Louco”, apelido de Boaventura Silva Filho, está certamente entre aqueles artistas que, segundo Gilberto Velho, construíram uma biografia a partir do campo de possibilidades “bastante típico da sociedade moderna, aparecendo fortemente solidário com o desenvolvimento de ideologias individualistas”. Assim é que artistas como ele, Agnaldo, Artur Pereira, José Antônio da Silva, G.T.O., Chico Silva, Chico Tabibuia, Dezinho, Eli Heil e vários outros constantes deste livro foram construindo em seu trabalho um “estilo” individual semelhante àquele existente entre os criadores pertencentes às elites. Louco encontra-se, certamente, entre os grandes nomes da escultura brasileira do século XX. O jacarandá, a jaqueira, a sucupira, o vinhático estão entre as madeiras que ele trabalhou por mais de três décadas, construindo uma veemente galeria de personagens sobrenaturais, que se distribuem entre a iconologia católica e a afro-baiana, ou as mesclam. Os títulos de suas obras deixam patente essa dupla filiação religiosa: Cabeça de Oxalá, Santa Ceia, Tocando atabaque, Iemanjá, Cristo, Oxalá Cristo, Grande, Anjo de candomblé. Esta escultura transculturada é bem visível no Cristo longilíneo com feições negras e na Última Ceia, sustentada, segundo ele, por escravos que estampamos aqui. Na escultura de Louco o ritmo sobressai como elemento construtivo dos mais importantes. Quer na sucessão de figuras seriais a formar sempre blocos harmônicos, quer na própria incisão com a goiva na superfície da madeira, que ele esfola, escama e ondeia. Seus personagens sobrenaturais, seus deuses, como ele os designou a Selden Rodman (1977), são figuras dinâmicas de sofrimento e transporte religioso. Como Agnaldo e Chico Tabibuia, Louco inova ao representar os próprios orixás em sua escultura, pois a tradição africana, bem como a dos grandes candomblés de Salvador – que ele frequentou durante um tempo -, é abstrata e geométrica em seus pontos riscados ou então indica cada santo pelos seus trajes, adereços e atributos, sem nunca retratá-lo. Como eles, ele emerge do coletivo para uma instância individual, na busca de uma expressão cada vez mais profunda e pessoal, como qualquer artista da elite, construindo o que se chama de “estilo”. Olhos rasgados, e em geral semicerrados, nariz afilado, braços e pernas alongados são apenas elementos que resvalam na descrição do “expressionismo”, no sentido do drama e da dor inesgotavelmente reinventados na forma que confere aos seus trabalhos. Sobre o seu apelido, contou a Selden Rodman (1977): “Quando parei de raspar cabeças e deixei de ser barbeiro para esculpir blocos de madeira, meus vizinhos disseram: o homem é louco. Eu achei um nome artístico ótimo, e deixei de ser Boaventura Silva Filho naquela hora mesmo.” Na realidade, quando ainda era barbeiro Louco esculpia cachimbos de madeira e barro entre o atendimento de clientes. Começou a fazer cabeças e figuras neles, mas acabaram por ficar tão grandes que passou finalmente para esculturas em blocos de jaqueira, sucupira, de jacarandá. Levou-as para vender em 1965 no Mercado Modelo, em Salvador, onde foram vistas por Jorge Amado e Mário Cravo Jr., que as compraram, e aí se iniciou o seu renome como artista. Louco passou a vender seu trabalho sem precisar sair de casa, com suas obras disputadas por colecionadores e comerciantes de arte. Pôde então construir no meio de um coqueiral em Cachoeira a sua bela casa branca, redonda, com todas as portas e janelas esculpidas por ele, onde funcionou sua oficina e viveu com a mulher e dez filhos. Em 1972 participou da exposição O Espírito Criador do Povo Brasileiro, coleção Abelardo Rodrigues, em Brasília, e de mostra no Centro Domus, de Milão. Em 1974 integrou Sete Brasileiros e seu Universo, com curadoria de Gisela Magalhães. Em 1977 integrou a representação brasileira ao 2º Festac de Lagos, Nigéria, com curadoria de Clarival do Prado Valladares, e em 1987 a mostra Brésil, Arts Populaires, no Grand Palais, Paris, com curadoria de Lélia Coelho Frota. Sua obra consta de grandes coleções particulares e integra o acervo dos principais museus de arte popular do país. Também criou em torno de si um “escola”, como é comum em meio popular quando surge um mestre. Transmitiu o seu saber aos familiares: seu filho Celestino, o irmão Maluco, já falecido, e os sobrinhos Maluco Filho, Doidão e Bolão (que assina Louco Filho), e que também se projetam como artistas.

Pequeno Dicionário do Povo Brasileiro, século XX | Lélia Coelho Frota – Aeroplano, 2005




Galeria Estação
Instagram