Artista

Ulisses Pereira Chaves

Ulisses Pereira Chaves
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Biografia

Ulisses Pereira Chaves
1924, Córrego Santo Antônio – MG / 2007, MG

Em plena zonal rural do município de Caraí residiu o maior ceramista do Vale do Jequitinhonha: o mestre Ulisses Pereira Chaves. Seu imaginário único, original, coloca-o, na realidade, entre os mais importantes escultores ativos no país do século XX. O paisagista Roberto Burle Marx – que entedia a circularidade existente entre as culturas altas e as do povo comum, e autor de uma obra coletiva de alcance universal – construiu no seu sítio de Barra de Guaratiba, no Rio de Janeiro, um pavilhão praticamente destinado à exposição das obras de Ulisses, que foi adquirindo ao longo de anos. Grave e digno, lutando para sobreviver numa região endêmica e levando uma vida a um passo da pobreza mais absoluta, Ulisses dizia “ser gente da natureza, sempre junto com o sol, a lua e as estrelas”. Quando era menino, trabalhava na lavoura, como fez sempre e criava gado. Com razão, não gostava de ser fotografado ou filmado, “pois isso tira a energia da pessoa”. Ulisses foi filho da paneleira Domingas Pereira Santos, por sua vez filha, neta e bisneta de oleiras. Por essas informações podemos aferir a antiguidade desse ofício quase tricentenário em Caraí. Também foi só a partir da geração de Ulisses que os homens adultos passaram a exercer a arte do barro, pois nas gerações anteriores sta era ocupação exclusivamente feminina. Ele raramente saía de seu sítio no meio do mato, onde morava com a mulher e criou seus oito filhos. Sua mulher, Maria José, e a irmã, Ana, que mora ao lado, são igualmente ceramistas e nascidas ali. Alguns filhos migraram para São Paulo, outros adoeceram e com ele ficaram Margarida, excelente ceramista, e o filho Zé Maria. Ulisses constituiu em torno dele uma oficina familiar, cujos membros levam a marca da sua invenção, mas com modos diferenciados de autoria. Figuras zoomorfas, antropomorfas, entes sobrenaturais de um único pé, como o Urômelo da tradição greco-romana, outros com inúmeras cabeças, minotauros, lobisomens, o imaginário fantástico de Ulisses veio se acrescendo de novos personagens com o tempo. Ao compararmos os seus trabalhos das décadas de 1970, 1980 e 1990, fica também nítida a busca de um crescente apuro formal, a consciência da pesquisa da matéria em função do resultado plástico. As últimas criações de Ulisses, iniciadas nos anos 1990, são as extraordinárias cabeças resolvidas com incrível economia de elementos, o nariz unindo-se à lisura de uma cabeleira que poderia ser p capacete e um guerreiro homérico, a boca entreaberta proferindo as palavras secretas do pacto feito entre o homem e a natureza. Expressionista, surrealista, ou participante de uma experiência outra, que convive com o sobrenatural com a maior naturalidade, considerando-o mais verdadeiro do que os fatos perceptíveis por todos os nós no seu dia-a-dia? Em duas visitas (2001/2) feitas ao seu pequeno sítio no Córrego de Santo Antônio, Ulisses deixou clara a sua consciência da natureza aurática da obra de arte, que declarou textualmente ser invisível porque em permanente mutação, e que sabia ser insubstituível e incomunicável a não ser p0ela sua própria presença física. O filósofo Eduardo Subirats refere-se a ele no ensaio “O último artista” (2004). Os trabalhos de Ulisses compuseram todo um módulo da mostra “Brésil, Arts Populaires” (Grand Palais, Paris, 1987) levada para o Museu de Arte de Brasília no ano seguinte e depois para a exposição permanente do Centro Cultural de São Francisco, em João Pessoa, Paraíba. Sua criação está representada no acervo do Museu Edison Carneiro (RJ) no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular do Iphan, bem como no Museu Casa do Pontal, que expõe a coleção Jacques van de Beuque.

Pequeno Dicionário do Povo Brasileiro, século XX | Lélia Coelho Frota – Aeroplano, 2005




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