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Mestre Vitalino

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Biografia

Mestre Vitalino
[Vitalino Pereira dos Santos]
1909, Ribeira dos Santos - PE / 1963, Caruaru - PE

Nascido nos arredores de Caruaru, Vitalino morreu por haver contraído varíola, pobre e famoso, aos 54 anos de idade. Com nove anos ele colhia mamona e algodão na roça com o pai. Com a mãe, aprendeu a fazer "loiça de brincadeira", miniaturas que vendia para crianças na feira.
Passou desses bichinhos para a composição de figuras isoladas com a peça "O caçador de onça". E daí para os grupos de figuras, que retratam desde o trabalho agropastoril do camponês até o desterro, nas representações que faz dos retirantes, tão adequadas à sua linguagem dramática, solidária e expressionista.
Fixa igualmente ritos de passagem - nascimento, casamento e morte - e ergue do barro figuras míticas de cangaceiros, bois, lobisomens sangrando homens. A crescente popularidade, tanto local como nacional, trazida pelo seu trabalho inovador, exposto e vendido na feira, faz com que se mude para o Alto do Mora, em Caruaru, segunda cidade do sertão pernambucano. Cenas urbanas, como a dos consultórios de médico e dentista, parque de diversão, estação de rádio, incorporam-se ao seu temário.
Homem religioso, expansivo e com gosto pelo convívio, Vitalino tinha prazer em conversar com seu público na feira, em beber com os amigos, em tocar na banda de pífanos. Esse comportamento comunicativo e alegre, contraposto à dura condição da sua vida material, reflete-se em composições como "O homem foliando samba", "Violeiros", "Queda de braço", "Banda", que mostram o artista gostando de estar no mundo, estar entre os homens.
De início, ele pinta suas composições com pigmentos naturais, feitos de barros de diferentes tons. A seguir usa tintas industriais, mas, como isso sai caro, passa a dissolver breu em querosene e a adicionar-lhes os preparados comerciais. Mais adiante, reserva os esmaltes comerciais para encomendas do público de maior poder aquisitivo e continua a vender trabalhos para os seus compadres habituais da feira, aqueles em que aplica o preparado com breu, para que também tenham a oportunidade de adquiri-los. Por fim, deixa as pequenas esculturas na cor natural do barro, devido à pressão de um mercado de fora, interessado em conferir um aspecto mais "rústico" e "puro" à produção do mestre. A fase pintada de Vitalino mostra como a cor, para ele, não foi decoração, e sim elemento integrado ao volume , pela dosagem e seleção de tons baixos, em que irrompem manchas de branco e vermelho. A marca autoral que vai aparecendo no seu trabalho acompanha tanto a transformação do alargamento da sua consciência e fazer artístico, como seu percurso pelo mercado do universo urbano. As primeiras figuras isoladas não levam assinatura. Depois, no reverso de grandes grupos, ele escreve suas iniciais a lápis: V.P.S. É só em 1947 que utiliza carimbo com essas iniciais, para finalmente, em 1949, imprimir seu nome nas composições. Criou-se em torno dele uma verdadeira escola de ceramistas. "Vitalino sendo o inventor, viu?", declara Zé Caboclo a Hermilo Borba Filho e Abelardo Rodrigues (1967). O mestre desenvolve o que chamaríamos já de um estilo, no qual seu "expressionismo" se traduz por um elenco formal próprio, como bem observou o seu grande biógrafo René Ribeiro (1972): orelhas sempre aplicadas em forma de interrogação; curvatura dos joelhos em ângulo reto nas figuras sentadas; corte de boca definido mas contido; narizes com tendência a arrebitados. Homem familiar e fraterno, Vitalino passou para os companheiros de profissão suas novas conquistas técnicas, deixava-se observar trabalhando. E também aprendeu algumas com eles, por exemplo, o arame empregado na sustentação interna das figuras inventado por Zé Caboclo.
Foi a exposição organizada por Augusto Rodrigues, em 1947, no Rio de Janeiro, que revelou Vitalino aos olhos do público maior. Seguiu-se esta, a outra, também individual, no Museu de Arte de São Paulo. A partir daí, "as inventações de motivo de boneco", como dizia Zé Caboclo, passaram a frequentar regularmente as páginas de jornais e revistas, e ele se tornou conhecido nacionalmente. Poetas como Manuel Bandeira e Joaquim Cardoso escreveram sobre Vitalino.
Dos seis filhos de Vitalino - Amaro, Manuel, Maria, Antônio (que morreu moço, mas que chegou a realizar cópias fiéis do trabalho do pai), Severino Maria José -, apenas os três primeiros exerceram continuadamente a arte. Hoje, os seus netos Silvio, Vitalino e José exercem o ofício.

Pequeno Dicionário do Povo Brasileiro, século XX | Lélia Coelho Frota – Aeroplano, 2005




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